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Parecia o deus Baco em sua toca, ou algum demente conquistador espanhol enquistado em sua fortaleza na montanha. Tinha um riso magro como arame, a barba prata e alongada, os olhos opacos que jamais miravam diretamente qualquer coisa.
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Beberrão e dissoluto, ameaçava balear qualquer um que não aceitasse um convite para beber com ele. Certa vez queimou dois fazendeiros que se recusaram a sentar em sua mesa. Tinha um ódio especial a seus prisioneiros lusos, e os tratava de maneira bárbara, desmembrando-os ou assando-os vivos sobre uma grelha.
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Dizia-se que sua família era composta de mouros convertidos que habitaram a Andaluzia. Seu avô era um estancieiro feudal que proibia duelos de faca e que pregava a palavra de deus a seus escravos.
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Sua casa, erguida nas selvas à beira do Caraíva, era seu lugar de refúgio. Seu quarto, forrado inteiro com couro de onça, no chão e nas paredes.
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A casa cheirava a escuro, a arredores chovidos, ao cheiro de velhos couros apodrecidos. As grades e paliçadas dos currais, envelhecidas como se delas fossem brotar idades e montanhas.
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Ao longo das paredes, os bancos de terra cobertos de madeira que serviam para sentar e para dormir. Era uma casa aparentemente móvel, pois a carregava no lombo dos da tropa durante suas viagens de exploração.
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quinta-feira, 4 de junho de 2009
Carleto Gaspar - 1799
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Carleto Gaspar - 1798
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, contava de um a cem e dobrava o dedo mindinho; contava de cem a duzentos e dobrava o seu vizinho; assim por diante, até completar mil e ter as duas mãos fechadas. Lá de cima escutava os tiros distantes e as descargas de artilharia e então começava a contar novamente...
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Subornaram os guarda-costas do General português que defendia a cidade, e na calada da noite, Carleto pode penetrar sozinho em sua tenda. No casaco de seda do comandante português adormecido, estava bordado o brasão imperial português, com uma águia azulada. Carleto enfiou sua lança na ave bordada com tanta força que se ouviu o ferro, depois de ter transpassado o peito do adormecido, bater na pedra e entortar sob ele. Acordando em sua morte, o General português ergueu-se nos cotovelos e a última coisa que percebeu em sua vida foi o senhor de olhos vermelhos, unhas de vidro e barba prateada.
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Dizia que quando se mata é diferente a cada vez, como na cama com uma nova mulher. Só que depois tu te esqueces de algumas delas, e de outras não. Do mesmo modo, alguns dos que mataste e algumas mulheres que possuíste não te esquecem jamais
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segunda-feira, 1 de junho de 2009
Matilde
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“Fica mais um pouco, és tão bela”
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Conhecera Matilde quando ela passara por Ilhéus junto com a companhia cigana de circo e teatro. Era atriz, cantora e malabarista.
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Se apaixonaram naquele mesmo dia. Comiam com o mesmo garfo, cada um de uma vez, e ela bebia o aguardente direto de sua boca.
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Ele a acariciava tão bem que a alma dela murmurava em seu corpo, e ela o amava e pedia-lhe que urinasse dentro dela.
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Lhe implorou, certa vez, para que mordesse um pedaço de sua orelha e o comesse, e nunca fechava as portas e gavetas atrás de si a fim de não interromper a felicidade.
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Era tão bela que amedrontava as pessoas. Os homens a temiam, as mulheres a invejavam. Ao nascer, tomara tudo que a mãe tinha de belo, de maneira que esta, depois do parto, ficou feia para sempre.
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Era uma mulher silenciosa, que crescera no mutismo das intermináveis leituras paternas de uma única e mesma oração, em torno da qual tecia-se sempre o mesmo silêncio.
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Ficaram juntos por três dias e três noites.
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terça-feira, 26 de maio de 2009
O Caranguejo
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O imperador Tsuang-Tsue chamou o maior pintor da capital em seu palácio e lhe pediu que desenhasse um caranguejo.
O pintor respondeu: "Preciso de cinco anos e de um palácio com 120 empregados"
O imperador lhe concedeu o que pedia, e passados cinco anos voltou a chamá-lo no palácio.
Quando questionado sobre o caranguejo, o pintor respondeu: "Preciso de mais cinco anos e de outro palácio com 120 empregados"
O imperador novamente lhe concedeu o que pedia, e, passados cinco anos chamou-o de volta ao palácio.
Quando perguntado sobre o caranguejo, o pintor pediu uma tela em branco e, em poucos minutos, desenhou o caranguejo.
Era o mais belo caranguejo que jamais havia sido pintado.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009
Homero Again
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Comoveu-se o esposo e disse, fazendo-lhe carinhos: ‘Anjo sem ventura, por mim não faças sofrer teu coração; ninguém me fará baixar ao Hades; homem nenhum, porém, foge à Moira, desde o dia em que nasce. Agora volta para casa, cuida de tuas coisas, da roça e do tear; vê que as fâmulas também às tarefas se apliquem. Aos homens troianos - e sobretudo a mim - incumbe-nos a guerra’.” Ilíada VI, 484-493
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sexta-feira, 15 de maio de 2009
Rehab
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Me contou de uma pena que sofrera em Atenas, onde ficou limpo na marra: “quinze dias bati a cabeça na parede; o sangue escorria pelos meus olhos e narinas. Quando o carcereiro aparecia, cuspia na cara dele”. Vindas dele, essas histórias possuíam qualidade épicas
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
O ventilador de teto na estação científica
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à frente noventa e nove baleias mortas e arrancadas do canal esticadas na escuridão como carroças negras da Escandinávia
Mamões, bananas, açúcar, abacate: As placas de gelo caem do céu como carne azeda. Ele pousa uma mão na testa, a outra suada prende o pau marrom-borracha
Naquele iglu geodésico, com seu ar úmido de hibernação(...)com a metereologia silenciosa e a masturbação alucinada na neve
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terça-feira, 12 de maio de 2009
Nice
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Numa jornada de carro aparentemente interminável pela Riviera Francesa, recusei-me a parar para que ... pudesse urinar. Enquanto ela se contorcia no assento, eu lhe disse: “Agache aí e faça o que tem que fazer”, não tendo escolha ela pegou um copo de plástico, o encheu e depois o jogou pela janela. Um forte vento fez voar o conteúdo do copo no assento traseiro, borrifando o rosto de Niko, que estava sentado com fones de ouvido “enrolando um daqueles cones gigantes de haxixe”. Estava tão chapado que nem pestanejou, apenas disse: "Ora, um pouquinho de chuva por aqui?’Tudo bem, chove o tempo todo naquela porra da Bélgica," (...)
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segunda-feira, 11 de maio de 2009
Pavitch e o estímulo ao Saque
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Apenas trabalho com uma espécie de dicionário de cores e é o espectador quem cria, a partir desse dicionário, frases e livros, ou seja, imagens. Tu também poderias proceder do mesmo modo escrevendo. Não se poderia oferecer ao leitor um dicionário cujas palavras constituiriam um livro, deixando-lhe a tarefa de compor um conjunto a partir dessas palavras:
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quarta-feira, 6 de maio de 2009
Roma
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Beba a graça dos quartos esvaziados pelos tremores, os súbitos relances de empatia com os mortos, a imprecisão dos encontros no tempo
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e observe do chão, mesmo que estejas caído, a forte batida provocada por um descuido dos motoristas que pensavam se as quatro cadeiras estariam arrumadas disciplinadamente ou se aquela conversa sobre calções listrados e imóveis em andares altos levaria à uma digna aposentadoria
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não aceitando qualquer das sugestões acima, nem bares, nem moças arfantes, nem museus com fotografias de revolução, então seguir para um quarto de hotel barato, não tão barato, mas discreto
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um hotel que tenha no ar uma coisa de destino, uma melancolia de esquadros procurando o zero e um vidro que esconda o sol, a cidade, as casas e que emane o aroma que te faria contente ao meu lado
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claro e estreito é o espaço que divide as grades da chancelaria
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
Le Restaurant
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Com um violoncelo adentrou o salão. Portava um sabre do século XVIII, pistola no coldre e uma enorme maçaneta em prata. Com precaução, tirou o sabre da cintura e entregou ao maître. Há sete dias que ninguém entrava no salão, a não ser por engano. O maître lhe trouxe uma mesa de madeira escura, uma cadeira e lhe entregou um pequeno caderno laranja junto de um lápis; nele desenhou um cais e as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebravam garrafas na cabeça umas das outras
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domingo, 3 de maio de 2009
Tristes Trópicos
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Estranha a vida desses motoristas-virtuoses, sempre prontos para os mais delicados consertos, improvisando e apagando as pistas por onde passavam, expostos a ficar semanas no meio do mato, no lugar onde o caminhão quebrou, até que um caminhão concorrente passe para dar o alerta em Cuiabá, de onde se pedirá a São Paulo ou ao Rio que envie a peça quebrada. Enquanto isso, eles acampam, caçam, lavam roupa, dormem e esperam.
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(195-196)
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Canção Nova
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Em pleno uso da poesia,
sorrio pela manhã no mercado do peixe
as pedras funcionam mesmo que lá as deixe
Já cansadas das águas em seu comércio perpétuo
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Não tive intenção de roubar esse rio
tampouco de pintar o oceano ou a casa arruinada
não queria, em palavras, anunciar a loucura da Barra
ou mostrar a eles que estávamos embriagados de um engradado de estrelas
rolávamos cambalhotas sob os muros do farol
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Acende as fogueiras
ergue piras nas pontas das paisagens
deixa que o fogo sozinho precipita-se
nem um Buda descobre seu caminho sem insetos
segue pela madrugada branca atrás das belugas
que se escondem na folhagem
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Metade do tempo enrugado como um couro
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Só o mato que toma conta dos fundos da rodoviária
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O cheiro de águas abertas descendo pelos abandonos
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As portas que proíbem roupas leves
como uma estrada repleta de tanques
os pântanos repousam em suas prateleiras de riga
os institutos acolhem formigas e suas pesquisas e tendências
nas paradas de trem obsoletas já retornam os carros de boi
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As cidades riem nas ruas até certo ponto
as pessoas de fora talvez não entendam a paisagem
os peixes talvez sonhem ser borboletas ou abelhas
e as pedras talvez invejem as cidades, invejem seus morcegos
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E as ruas, até certa hora, escutam silêncios com a brandura
da terra abusada e extraordinária, nos pátios amanhecidos de chuva
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O prazo de decifrar as horas e ladrilhos
e nesse verso celebro como uma grande praça
a decorar os mapas de todas as coisas
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sábado, 25 de abril de 2009
O carletismo em Jorge Luis Borges - II
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Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de muradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009
Ceilão
Pois vossos sonhos são os dias nas noites
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Era um balneário de praias cercadas de colinas florestadas. Estava hospedado em uma casa bem no meio da praia e comandava provisoriamente o tráfico de mulas e a exploração do sal nas enseadas.
Passeava pelas encostas em um de meus passeios matinais quando encontrei numa clareira, em volta de um cercado de madeira, Renata Sorrah, e seu jovem amante. Eles afirmavam ter viajado pelas terras dos pictos e escotos, medos e egípcios e cantado para César, bem como para o líder dos hunos, godos, getas e suevos.
Me afastei confuso da floresta , seguindo por uma trilha que me levou através do deserto até um oásis de água doce, onde vislumbrei o palácio de espessas paredes caiadas, pátios azulejados, onde bailarinas descalças dançavam
terça-feira, 21 de abril de 2009
A influência Carletista em Jorge Luis Borges
Assim teve início a aventura que durou tantos invernos. (...) Fui remador, mercador de escravos, escravo, lenhador, assaltante de caravanas, cantor, catador de águas profundas e de metais. Padeci no cativeiro durante um ano, nas minas de mercúrio que amolecem os dentes. Militei com os homens da Suécia na guarda de Mikligarthr (Constantinopla). Às margens do Azov amou-me uma mulher que não esquecerei; deixei-a ou ela me deixou, o que é a mesma coisa. Fui traído e traí. Mais de uma vez o destino me obrigou a matar. Um soldado grego desafiou-me e me ofereceu a escolha entre duas espadas(...) Combati os sarracenos com os homens azuis de Serkland. No curso do tempo fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho (...)
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(do Livro de Areia)
segunda-feira, 20 de abril de 2009
LXXVII
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(Mulheres que navegam de noite cantando em canoas iluminadas entre as margens de um estuário verde)
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Fiz um brioche de queijo para mim e fiquei imaginando espermatozóides com capotes de frio, tremendo em frágeis jangadas de madeira enquanto tentavam contornar o iceberg que bloqueava o seu caminho para os óvulos gelados.
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(...) E Rachel me disse: Às vezes penso no meu clitóris como um imã, me arrastando para revelar novos depósitos de minérios nas minas.
(...) Eu me perguntava se teria que me mudar para a casa de meus pais no interior para evitar safáris em busca dos meus orgasmos como Tarzan em seu caminho pelo cemitério de elefantes
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Simultaneamente eu gozo na minha mão
Esperma nas roupas de cama & e nas suas pernas
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( de Fragmentos de um Copista)
domingo, 19 de abril de 2009
II
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(...) Os rebeldes então massacraram a guarda real e dominaram quase toda a cidade, proclamando um novo imperador. Diante da gravidade da situação, Justiniano ameaçou abandonar o trono e a cidade, mas foi chamado aos brios por sua mulher Teodora. A altiva imperatriz disse:
Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda. Se quiseres fugir, César, foge. Tens dinheiro, teus navios estão prontos e o mar aberto. Eu, porém, fico. Gosto desta velha máxima: a púrpura é uma bela mortalha.
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(de Fragmentos de um Copista)
sábado, 18 de abril de 2009
CIV
(...) CVIII No fundo da água, caranguejos mordiam os olhos dos suicidas com uma pedra amarrada no pescoço e os cabelos verdes de algas. CXIII Subi as escadas do pérfido palácio que tinha as cúpulas mais altas e atravessei sete pátios (...). A sala central era protegida por barras de ferro: os presidiários com correntes negras nos pés içavam rochas de basalto de uma mina no subsolo.
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(de Fragmentos de um Copista)
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Fragmentos de um Copista
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“... vemos frequentemente as obras, por uma artimanha fundamental, serem sempre apenas seu próprio projeto: a obra se escreve procurando a obra, e é quando ela começa ficticiamente que ela termina praticamente”
Roland Barthes
I
Me fazia lembrar da vez, no mais desamparado e deserto dos subúrbios da capital, em que (ele) nos trancou em um quarto de pensão com uma garrafa de vodka, uma pedra de haxixe e disse que só sairíamos depois de escrever uma obra relevante.
Por volta do amanhecer, um dos gendarmes que nos vigiava a cavalo viu no umbral de uma antiga loja de tintas um homem com um poncho, deitado.(...)
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
ابو علی الحسين بن عبد الله بن سينا
精機光学研究所, Seiki Kōgaku Kenkyūj
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[Mânlio Severino Boécio, da velha estirpe dos anícios, nascido em 470. (...) Sob teodorico foi investido em altas funções administrativas, cônsul e magister palatii. (...) Dando crédito a uma intriga política, o rei mandou executá-lo cruelmente em Pavia, em 525, depois de ter padecido longa prisão.]
(Jacó de Veneza, às suas traduções, acrescentou comentários).
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A crónica de Eusébio, dividia-se em duas partes, sendo a segunda, chamada em grego, chronikoi kanones
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Avicena é o nome dado nas culturas ocidentais a Ibn Sina (Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina, Bucara, 980 — Hamadan, 1037), célebre filósofo e médico persa.
Ibn Sina escreveu perto de 270 títulos, entre eles a sua autobiografia, finalizada por seu discípulo al- juzjani, al-qanun (ou cânone), obra médica de conhecimento enciclopédico, mais importante em seu tempo que a obra de Galeno.
Dividido em 5 livros (i- generalidades, ii- matéria médica, iii- doenças da cabeça aos pés, iv- doenças não específicas de orgãos, v- drogas compostas) o al-qanun compreende cerca de um milhão de palavras.
Foi traduzido posteriormente, no século xiii, para o latim por Gerardo de Cremona e até ao século xviii foi o livro de estudo adotado nas universidades de Montpellier e Louvain
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A primeira peça de Menandro foi Orge, cólera, a que se seguiram mais de cem comédias, quase todas conhecidas apenas pelos títulos ou por fragmentos citados por autores antigos.
É do gramático Aristófanes de Bizâncio o epigrama: "Menandro e vida! qual de vós imita o outro?" que ilustra o enorme prestígio que Menandro desfrutava em seu tempo.
Juntamente com Pitágoras, foi defensor do vegetarianismo. Os dois, ao lado de Apolônio de Tiana, são os vegetarianos mais famosos da antigüidade clássica.
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(Porfírio foi o autor de uma biografia de pitágoras (vita pythagorae), que não deve ser confundida com o livro homônimo de Jâmblico.
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Deixo para após o carnaval Euclides, Diofanto, Hiparco, Erastótenes, Herón, Herófilo, Erasístrato, Cónon de samos, Apeles, o pintor, Dídimo, o músico, Dinócrates, Calímaco, Dionísio da Trácia, Longino, Maneto, Teócrito, Zózimo, Símias, Sinésio
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(O Kanon (カノン) foi liberada para PC, e depois para Dreamcast e PS2, ambas as versões com as vozes dos personagens, com a exceção do protagonista. )
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Do Kanon de Policleto, o Doríforo, apenas conhecemos cópias romanas de bronze inicial. Como o Vitruviano de da Vinci, o Doríforo estabeleceu as proporções na escultura durante séculos.
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O cânone, a forma polifônica, em que uma voz corre atrás de outra, uma após a outra, uma retomando o que a outra acabou de dizer, enquanto a primeira continua à frente o seu caminho como aquiles para alcançar a tartaruga
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O produto original da companhia Canon, a câmera "Kwanon", foi escolhido como uma homenagem à deusa budista da piedade absoluta, Kuan Yin.
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O Kanon de Ptolomeu é uma lista de reis que determina a cronologia do antigo oriente e a queda da Babilônia para os persas em 539 a.C.
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Um cânone que é, ao mesmo tempo, retrógrado e invertido é chamado de cânone de mesa. Um cânone de mesa pode ser colocado numa mesa com um músico de cada lado, ambos lendo a mesma linha de música em direções opostas.
(Bach escreveu poucos cânones de mesa. )
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(...)
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Are you Kanon ?
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O diâmetro da entrada da caverna
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...............................................A Lucas Viriato
Não existe
coleção melhor de
esqueletos de baleia
mas meu pai caçava pássaros
e não viu a tarde em que
as legiões zarparam
e eu fumava de mãos molhadas
sobre os mortos
na lama cristalina de Delville Wood
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
O Homem de Okhotsk
I
O cárcere de pedra é gélido às margens do Mar de Okhotsk. Apenas um estreito feixe de luz invade a escuridão do espaço. O homem, no canto mais seco, luta contra a umidade e a neve: com uma espécie de agulha negra entalha desenhos complexos em seu corpo. Diante da sombra, a tinta é a única forma, ele pensa, de se manter aquecido e desperto.
O homem inicia a criação de paisagens em seu corpo; sua pele é deserta e vazia, o sopro de gelo entra pelo espaço das frestas e mesmo sem um agasalho ou idéia das cores, ele começa a pintar-se pelos pés com uma seqüência de oito praias escuras que acompanham os intervalos entre os dedos e que seguem para o interior dos pés como uma vegetação de arbustos e espinhos até converterem-se em uma densa selva tropical nas coxas e virilhas. A partir da cintura, a floresta criada pela agulha em seu corpo passa por uma transição até tornar-se uma savana aberta que se espalha sobre seu abdômen até a desnivelada aridez das serras que ele entalha nas costelas.
Sobre toda a parte inferior de seu ventre ele delineia um grande e calmo mar interior abastecido pelas águas de dois rios que nascem na ponta de seus mamilos. Fontes, lagos, regatos e riachos são criados acompanhando alguns setores do sistema circulatório e o homem contorce seu corpo como um circense para poder cobrir todo o resto de seu tórax com uma vegetação agreste alternando tundras e desertos.
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II
São poucas horas sem o vento gélido no rosto; é preciso aproveitá-las para corrigir imperfeições, redefinir nuances: Nos pés, beirando as praias e baías, o homem cria uma nova cidade portuária cercada de bosques de palmeiras e bambus. Em seu rosto entalha uma espécie de taiga siberiana, onde eventualmente se destacam contornos de leopardos brancos ou ursos do Himalaia.
Nas fronteiras de seu pescoço tatua uma série de planaltos e glaciares se estendendo até as orelhas, onde ergue indistinguíveis precipícios. O frio domina todo espaço da cela e uma espécie de cerração glacial impede o homem de sentir com clareza a grande área de charcos em que se afundava seu braço esquerdo durante um breve momento de desatenção, mas é tempo suficiente para seu braço torna-se um campo fétido e infeccionado e ele então, como que para proteger-se de uma desventura térmica, se põe a drenar seus braços com diques e canais.
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III
Amanhece outra vez embora ele não perceba a pouca variação da luz no inverno ártico; o homem reúne suas tímidas forças e se força a começar um largo projeto de irrigação que planejara na véspera: acabar com os áridos contrastes de seu tronco, transformar seu abdômen e as costas em um mosaico de culturas que produzam de vinhedos, queijos, trigo e mel até laranjas, rosas e resinas. Nas nascentes de seus mamilos cava poços e minas d'água e agora manadas de cavalos e gado atravessam anualmente seu tórax para serem vendidas no sul ou nas fazendas do dorso.
Às margens do mar interior de seu abdômen costura com a agulha um próspero centro de veraneio onde espalha hotéis sofisticados, boutiques de luxo, quadras de tênis e um belo cassino de tapetes aveludados. Esculpe seu pênis como um furioso vulcão cercado por florestas de pinheiros em cujas encostas se espalham ruínas de antigos templos destruídas pelas seguidas erupções de magma branco.
Em sua nuca o homem consegue criar, mesmo absorvido pelo sismos e pelas temperaturas de Okhotsk, uma suntuosa cidade-estado de avenidas largas, plátanos em fileiras, restaurantes nas calçadas; e mesmo tendo já perdido a sensibilidade nos dedos, ele entalha com precisão na cidade, clubes de campo, escolas de música, academias de arte, bibliotecas, hipódromos e na enorme praça central de sua capital ele desenha uma suntuosa gare.
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IV
O homem sente um estranho formigamento nas extremidades na data em que começa o grande projeto da expansão corporal ferroviária. Primeiro, constrói a locomotiva que liga as vilas caiçaras na planta dos pés, atravessando as selvas, até as cidades das colinas localizadas nos joelhos; depois um custoso empreendimento conecta este primeiro ramal da estrada de ferro à tímida estação de trem situada nos ducados estabelecidos às margens das águas do umbigo.
Da capital desenhada em sua nuca projeta uma enorme ferrovia que seguindo os montes de sua espinha dorsal, atravessam seu corpo de norte a sul, passando por campos e vinhedos que se estendem pelas encostas de sua dorsal e bifurcando-se na altura do cóccix. Um dos ramais da ferrovia segue até as aldeias de pescado e estanho do pé direito e outro atravessa um enorme túnel sob o joelho esquerdo seguindo até o porto localizado no dedo maior de seu pé, onda agora já se destacavam armazéns, feiras e atracadouros.
Delineia então dois novos grandes vales, dos ombros à cintura, entre a cordilheira da espinha dorsal e as serras da costela e batiza os dois rios paralelos com os nomes de Tigre e Eufrates e então irriga suas costas e cria uma miríade de cidades-estado.
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V
Quando terminou de tatuar cada centímetro do seu corpo com precisão pensou se já não era hora de desenvolver um pouco as cidades, aumentar a produtividade nos campos e o homem resolve então diminuir a área que concede às paisagens e cria novas colônias agrícolas, assentamentos rurais, serrarias e decide furar poços de petróleo em sua virilha e promover uma plena industrialização de seu corpo. Criou então um pólo industrial em suas nádegas onde concentrou toda a indústria pesada incluindo metalurgia, petroquímica e fábricas de tratores.
Com febre e rangendo os dentes em espasmos de frio ele fura em seu corpo a luz das lâmpadas nas antigas paisagens intocadas, fábricas de curtumes, gás e tinturarias; com fortes espasmos das agulhas em fúria, entalha motores em seu ventre, fornalhas, caldeiras e guindastes, estaleiros; sobre a natureza tropical de suas pernas, ergue grandes complexos minerais de borracha e ferro e o homem triunfante em seu tremor de artista, tenta pelo menos penetrar fisicamente a indústria em seu abdômen, a agulha lhe fazendo um excesso de carícias pelo corpo, ele rasga a própria carne para sentir os perfumes do óleo e do carvão.
O homem estabelece então uma breve divisão política das partes de seu corpo e estabelece uma Monarquia Constitucionalista ao redor da grande cidade-estado na nuca, nas pernas estabelece regimes presidencialistas, nos pés crescem prósperas repúblicas mercantes, nas nádegas estabelece uma confederação de feudos estabelecidos em torno de palácios fortificados, nas costas imperadores-filósofos lambuzam-se no bálsamo dos grandes rios.
Para seguir industrializando seu corpo, o homem pensa ser necessário grandes provisões de combustíveis e matérias-primas, então cria minas de carvão e ferro nas costelas e nos cotovelos, e estabelece uma guerra entre os diferentes estados que criara em seus braços. A campanha militar é desastrosa para os habitantes do antebraço, a resistência deles, desesperada, contra os generais dos ombros usa o método da terra desolada e irresponsavelmente tudo que há no caminho entre o ombro e os pulsos do homem se queima. Sua pele é destroçada ao longo de uma retirada apressada, mas o processo de industrialização ganha impulso na região das nádegas com a crescente demanda por armamentos.
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VI
Na hora se de deitar, sua mente passeia desde as colinas e pampas dos peitos até a garganta, as praias do abdômen, os capoeirões da cintura. Ele treme como um electrocutado e conforme treme ele sangra de suas repetidas investidas nos mesmos pontos; a taiga de seu rosto sangra em cascas, os campos de sua espinha dorsal sangram em placas, suas serras na costela em hemorragia e na umidade da cela só o que ele faz é misturar o sangue à tinta e à terra e ele, trêmulo e cansado das turvas feridas de suas paisagens, resolve refazer as cidades de forma que eles voltem a parecer justas e harmônicas e não aquela sujeira de poluição e lama; para isso saneia os rios contaminados pelos metais, moderniza as docas, urbaniza os cortiços e demarca parques para proteger os poucos esboços de paisagens ainda intactos em seu corpo.
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VII
Suas mãos deveriam ter permanecido como os últimos pontos intocados de seu corpo, era somente ali que o homem sentia ainda sua própria pele como a paisagem, mas as agruras do clima levaram suas mãos ao desastre do frio e o homem para aquecê-las se pôs a pintá-las com as agulhas como se fossem verdadeiros fiordes e então, desiludido com o desenvolvimento irresponsável das paisagens em seu corpo, com a insuficiência das medidas que tomara para conter a podridão, amargurado pela dor das indústrias que misturam tinta e terra à sua carne, ele resolve por fim promover um grande dilúvio em seu corpo e assim acabar com aquela imundície. Com a agulha começa a grande inundação e as águas negras vão tomando tudo desde seus pés, subindo pelo tronco e a última sensação que tem, antes do frio apagar sua sensibilidade, é sentir uma luta feroz entre um cachalote e um marlim gigante na cavidade funda e vazia de seus olhos.
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Arrogância
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For Bunny
I
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Luis XIV dizia: "L' État c'est moi"
Gustave Flaubert afirmou: "Emma Bovary c'est moi"
Eu digo, de antemão: "Le Kanon c'est moi"
II
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Que quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser Kanon na vida.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Sim, nós temos pradarias
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O rio segue a formiga que segue o garimpeiro que avança logo ali na escada; melhor: bactérias escutam notas de piano e vão dançando de ilha em ilha como cachalotes ao sabor dos tiros
Mais uma?!
Como pensava o ostrogodo na trincheira sob o rebanho da aviação aliada se a passagem entre o Negro e o Orinoco era ainda uma paranóia das revistas de viagem que , de alguma forma, ajudam a entulhar ainda mais de documentos esse nosso estúdio-quarto sete por dois?
PS. Ainda outra? ok
Respondi na data: Sim, nós temos pradarias, disse isso lançando mão do incêndio que duraria até as chuvas torrenciais: yes, nós temos pradarias
(...)
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Lembretes
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1- Marcar Vistoria Detran
2- Encaminhar documentação apartamento
3- Pressionar editora
4- Peça / Crockette
5- Ler a C. dos Tamoyos
6- Mitologizar a semana
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Edifício Manhatã
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Faltou o tio que roubava cobre nas estradas de Friburgo, que levava nos cadernos tudo que escavava, em sua engenhosa urdidura de arqueólogo:
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“ Tirem-me de Samarcanda
Arranquem-me as carvoarias
Deixem-me surdo, as chuvas,
várzeas arrasadas,
pele?
(...) ”
.
Distraidamente aquela tarde inteira ele correu até alcançar e dizer:
.
“Espere.
Não deixe que
esse vai-se ver
e não vê-se sem
idade, o sol
queimando ao
redor das
olheiras,
a noite
enunciando
lógicas de
caramujo,
não deixe. .
No ensaio
de prosseguir,
prossiga."
e o old man searching for a hotel found sua cama numa bottle de martini
.
sábado, 25 de outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Milésias Ficciones
.
.
(...)
O taxi parou bem em frente à portaria para trazer a mensagem:
“Guiarias um carro de guerra ou lhe parece melhor a idéia de liderar os arqueiros?”
.
(Naquele trecho do rio inferior os pescadores
bebiam vinho em quantidades inverossímeis.
Era tida como uma terra de casarões nas barrancas) ..
.
Além de rico comerciante,
era também dono de cortiços
companhias de arrendamento
um velho imbecil
.
.
A verdade é que já não havia mais ninguém em volta
Só alguns olhos de perversa inocência, cebolas arrancadas sob um sol de espetos, o burro, de vértebras rijas, curvo sobre as dunas, e eu olhava a estrada, os calangos, as água de poço sem fundura e pensava que jamais alcançaria o acolchoado.
.
Foi o dia em que trepei na marquise :
um sétimo andar na zona portuária
.
. chovia a cântaros
.
a luz circular do refletor
sobre o colchão improvisado .
.
e eu queria seguir avançando
apesar da franca desvantagem
..
..
mas ela retrucou, precisa: ..
..
Mostre um milagre qualquer
e então desapareça
.
enquanto estiverem todos
surpresos
.
.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
04:00 a.m.
.
I
Quando olhei
no relógio
as quatro horas
me veio o
imperativo de
deitar-se:
Aguardar
ansioso o
retorno
de mais
uma
madrugada.
II
Instauremos um dia de 120 horas:
- 24 hrs de manhã
- 24 hrs de tarde
- 24 hrs de noite
- 48 hrs de madrugada
Aí sim
surgirá
a nova
poesia
.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Areh ianoh ventoeh lishah
........Semin eralizarse,.......
........fendana srochas,.......
........penet rarof óssil,.......
........lodod asfor mas.......
............prim evas.........
.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Estio
.
Assim,
sem qualquer
clima verbal
de recriar
uma epopéia
de casais separados
barcas
sem motor
implorando
generosidade
às velas
Assim
de secura
extrema
nas entranhas
sem nem
vinagre para
cerrar as
janelas
sem uma
donzela
pra comprar
uma caixa
de cerejas
alguma seta
para indicar
o caminho de
Aleppo
.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
do Ofício
.
"O coração vota
e o dever dita: escreverei."
Maiakovski
1.
Questão:
.
Se
as palavras
do poeta
são a sua
ressurreição
.
então a arte
consiste
tão somente
em saber
utilizar
.
a palavras alheia?
.
2.
Breve exemplo saqueando o cronista português do século XV, Fernão Lopes:
.
"E dois
de seus
escudeiros,
com temeridade,
resolveram
roubar
um judeu
que pelos
montes andava
vendendo
especiarias
e outras
cousas.
.
(e foi assim,
de feito,
que roubaram-no
de todo,
e (o pior)
mataram o
homem."
.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
da Ópera dos Fortes
(...)
"Tive de ser a cada vida, cidade na ponta dos bombardeios, velho canhão na ópera do forte
dizia adeuses, das inocências das portas do limbo, anjo sobre carruagens nas rotas do quarto vizinho
da velhice passada nas galés, estalagens na estrada provinciana, salvo das vagas pelo olhar furioso
nao mais o falso especialista em cartografias, homem da visão nos números, príncipe dos jogos de azar
não mais vagabundo de guerras vagas"
(...)
terça-feira, 9 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Açoite
..
.
"pela manhã, que nos depara a
ilusão de um princípio"
I
era o início do
grande caminho
quando parei
para interrogá-la
mas ela era
incapaz de responder
e já não havia
rastro de
ninguém
II
deixa então na
imensidão que
enxergas
e segue com
a claridade
como um
farejador
de patas
III
e lhe perfumou
a espada
aquela investida
dos cães
junto aos
camelos
ante o
frescor das
tempestades
de granizo
IV
criadas no conforto
gazelas conduzem
sem rédeas as
manadas para oeste
seguem-na as
formosas dádivas
ao primeiro
garanhão que
cruzar a
linha das
pastagens
mas no charco
a lasca de
vidro ainda
atacava
em cirurgias
mesmo nos
afligidos de
inflamações
nos olhos
V
galhos quebrados
amontoados de
entulho ruidoso
o vale confuso
nos arvoredos
de espuma
a soma das
tribos
nas margens
castigados
por um
açoite
permanente
de
torpezas
VI
apavorado
após cansaço
e suor
buscando
refúgio
no
mastro
do timão
perto de
onde
dormiam
o caldeirão
e a
vala
.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Basra VIII
.
Diversas
danças e jogos
e ensaios de
beligerância e ele
nos bailes aos
pares e ela
com certo receio
nas estampas
como da fama que
alguns carregam
a vida toda e
ele dono
dos campônios
na cintura a mania
e o propósito
dos saques
não negava-se
o prazer da
caça acreditando
que saber
profetizar o tempo
é ver a própria
dissolução e
cortejar o
próprio
fim
.
domingo, 10 de agosto de 2008
Basra II
.
Simples a
percepção de
cair na
lembrança e
perceber o
hoje há
cinco milhões
de anos
atrás
e o
mesmo exato
do tempo
olhando sem
ver aquelas
idéias que
eu
não sem
claridade
sou incapaz
de roubar
.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Basra V
+ um tango do cavalo apeado
1.
e
no último capítulo, com pesar do desterro,
o dia inteiro anteontem e passando
por um velho que de laboriosas
feições inundava seus contos
e de fronte assim meio
ofendido talvez por
eu estar à frente
um pouco à
sua frente
no palco
2.
depois
a noiva
a irmã da noiva
a primeira dança da noiva
o rancor no bairro
as zonas de meretrício
ás as às
3.
antes
as certezas valentes
nos bancos da igreja
as certezas valentes
de farmácia
4.
aqui
a festa:
jagunços
na porta
escutam
um velho
bolero
de ilha
5.
suas selas
sem estribos
com descuido
esquecem freios
e aí tudo se perde
como um grande
pranto
de arreios
.
Basra IX
.
1.
o Adão desgarrado
olhos como brasas
na pata das cebolas
2.
o mesmo, mesmo diante da
velha palmeira abatida
3.
e pisar na
terra num ar
tão feliz como
navio risonho
em vista de final
de paisagem
4.
de obsceno
aconchego
o ladrilho
na embriaguez
da solidão
no banho
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Basra XXI
Mais alguns
lances no
terraço circular
mais alguns
três mil
homens na
defesa do fortim
mais um tanto a
profissão de
roubar tecidos
descuidar
das pedras
mais de outros bustos
nas rachaduras
persistência indigna
das pérolas
mais uma escada
que levasse ao interior do forte
brisa noturna
que nos levasse os
parágrafos
.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Basra IV
Quarenta e sete capitães arrebatados pelo jogo nos bordéis, e outras figuras enfileiradas no salão. o de caudalosos juncos que iluminava, na luz, os soldados, o qual com um vigor de sonolentos trotes. do cavalo apeado, sem cortesia sem lamentos sem cartas, os meses na consciência, o olho de fio aguçado. verbo de amplificação e montanha,
...
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Basra XIX
.
O alicerce sulcava a
montanha mas
não era da
trilha visível
além do
que as gretas
trabalhavam para
distrair o viajante
só que refugiados
ignoravam as
regras do governo
provisório e
não me
surpreenderia se
envenenassem os poços
se pelo menos
refizessem as
portas
quando lá alcançaram
atrasados
um agrado
que jamais
me lembrava
o som daquelas
gotas no ar
condicionado
subterrâneo
da gruta e
o granito no
piso como
uma espécie
de consolo
para os órgãos
contra uma
reprovação que era
quase remorso de
havê-los destacado
e o último
capítulo pode
ser uma ponte
com o sétimo
mas talvez
ficasse melhor
com o terceiro
pelo significado
de serem
partes que
consumiram soldados
enquanto as outras
partes que transcrevi
falam do
último capítulo
de perto o mais
curioso daquele
que professei
o que assino
( levanta-se
testa a voz
com descição
na mesa) e
a rotina era
como se
esperasse de
um convidado
qualquer hostilidade
que justificasse
mostrar o punhal
mesmo que soubesse
que na frente
da mulher de
cabelos cacheados
estaria suado
e a prata não
reluziria tanto
então
chamar o
forasteiro que
dorme na
cocheira e
pelo braço
em lágrimas
a moça vê sua
torre de vertigem
à vista de todos
a moça vestida
a moça descalça
conforme o
plano o
movimento das
ruas arrefecia
mesmo sabendo
que seria um bom
dote para
o casamento
mas um estampido
chamou de volta
a atenção da
tropa e as
coisas não
passaram exatamente
como conto
as cores vivas
sem cessar
há dois anos
um após outro
e não me
surpreendi de
conversar com
eles na tarde
em que encontro
todos que sejam
alguma lembrança
e lutar um
ato só é
mais que todas
as horas dos
homens mais que
os homens
cujas pernas não
atravessaram o
campo de batalha
mais que
uma língua
secreta um
destino
um acaso que
toda negligência
deliberada
não ouvindo
clamor no
telhado subiram
para ordenar
mantimentos e
quanto mais
recordavam mais
nada se
compreendia
e os atos dos
loucos apareciam
como primores de
sensatez
e nas cavidades
onde se revezam
o túmulo e
florista e
o clima
demorava
numa grosseria
de léguas e
de madeira
pintada cantavam
os pastores
com seus
vocabulários de
palmeiras e
com pesar
a escrava de cabelos ruivos
desaparece
no solo da rua
e o microcosmo
do pensares
e as milhares
de aparências
segundo o
entendimento da
treva entre
o ser faminto
e o pedaço
de carne
na mesma baixa
lógica das
marés a
perder-se do
lado de cá
numa baía de
tais estranhezas
que nem o homem
das areias
nem o vizir
nem o de fama de covarde
nem o contrabando
e eu
disse-lhe: “falta
pouco para terminar
a obra, necessito
um último
adiantamento”
e ele responde
deixa que
inflem as
velas que aqui
concluirás esta
obra e assim
as autoridades
obedeceram
sem queixas
e Basra como
personagem central
pensou se a
sua inverossimilhança
seria de total
intolerável?
.
Marechal Carleto Gaspar 1841


