quarta-feira, 29 de abril de 2009

Canção Nova

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Em pleno uso da poesia,
sorrio pela manhã no mercado do peixe
as pedras funcionam mesmo que lá as deixe
Já cansadas das águas em seu comércio perpétuo
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Não tive intenção de roubar esse rio
tampouco de pintar o oceano ou a casa arruinada
não queria, em palavras, anunciar a loucura da Barra
ou mostrar a eles que estávamos embriagados de um engradado de estrelas
rolávamos cambalhotas sob os muros do farol
.
Acende as fogueiras
ergue piras nas pontas das paisagens
deixa que o fogo sozinho precipita-se
nem um Buda descobre seu caminho sem insetos
segue pela madrugada branca atrás das belugas
que se escondem na folhagem
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Metade do tempo enrugado como um couro
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Só o mato que toma conta dos fundos da rodoviária
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O cheiro de águas abertas descendo pelos abandonos
..
As portas que proíbem roupas leves
como uma estrada repleta de tanques
os pântanos repousam em suas prateleiras de riga
os institutos acolhem formigas e suas pesquisas e tendências
nas paradas de trem obsoletas já retornam os carros de boi
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As cidades riem nas ruas até certo ponto
as pessoas de fora talvez não entendam a paisagem
os peixes talvez sonhem ser borboletas ou abelhas
e as pedras talvez invejem as cidades, invejem seus morcegos
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E as ruas, até certa hora, escutam silêncios com a brandura
da terra abusada e extraordinária, nos pátios amanhecidos de chuva
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O prazo de decifrar as horas e ladrilhos
e nesse verso celebro como uma grande praça
a decorar os mapas de todas as coisas
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sábado, 25 de abril de 2009

O carletismo em Jorge Luis Borges - II

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Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de muradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Ceilão

Pois vossos sonhos são os dias nas noites


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Era um balneário de praias cercadas de colinas florestadas. Estava hospedado em uma casa bem no meio da praia e comandava provisoriamente o tráfico de mulas e a exploração do sal nas enseadas.


Passeava pelas encostas em um de meus passeios matinais quando encontrei numa clareira, em volta de um cercado de madeira, Renata Sorrah, e seu jovem amante. Eles afirmavam ter viajado pelas terras dos pictos e escotos, medos e egípcios e cantado para César, bem como para o líder dos hunos, godos, getas e suevos.

Me afastei confuso da floresta , seguindo por uma trilha que me levou através do deserto até um oásis de água doce, onde vislumbrei o palácio de espessas paredes caiadas, pátios azulejados, onde bailarinas descalças dançavam

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terça-feira, 21 de abril de 2009

A influência Carletista em Jorge Luis Borges

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Assim teve início a aventura que durou tantos invernos. (...) Fui remador, mercador de escravos, escravo, lenhador, assaltante de caravanas, cantor, catador de águas profundas e de metais. Padeci no cativeiro durante um ano, nas minas de mercúrio que amolecem os dentes. Militei com os homens da Suécia na guarda de Mikligarthr (Constantinopla). Às margens do Azov amou-me uma mulher que não esquecerei; deixei-a ou ela me deixou, o que é a mesma coisa. Fui traído e traí. Mais de uma vez o destino me obrigou a matar. Um soldado grego desafiou-me e me ofereceu a escolha entre duas espadas(...) Combati os sarracenos com os homens azuis de Serkland. No curso do tempo fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho (...)
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(do Livro de Areia)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

LXXVII

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(Mulheres que navegam de noite cantando em canoas iluminadas entre as margens de um estuário verde)
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Fiz um brioche de queijo para mim e fiquei imaginando espermatozóides com capotes de frio, tremendo em frágeis jangadas de madeira enquanto tentavam contornar o iceberg que bloqueava o seu caminho para os óvulos gelados.
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(...) E Rachel me disse: Às vezes penso no meu clitóris como um imã, me arrastando para revelar novos depósitos de minérios nas minas.
(...) Eu me perguntava se teria que me mudar para a casa de meus pais no interior para evitar safáris em busca dos meus orgasmos como Tarzan em seu caminho pelo cemitério de elefantes

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Simultaneamente eu gozo na minha mão
Esperma nas roupas de cama & e nas suas pernas
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( de Fragmentos de um Copista)

domingo, 19 de abril de 2009

II

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(...) Os rebeldes então massacraram a guarda real e dominaram quase toda a cidade, proclamando um novo imperador. Diante da gravidade da situação, Justiniano ameaçou abandonar o trono e a cidade, mas foi chamado aos brios por sua mulher Teodora. A altiva imperatriz disse:

Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda. Se quiseres fugir, César, foge. Tens dinheiro, teus navios estão prontos e o mar aberto. Eu, porém, fico. Gosto desta velha máxima: a púrpura é uma bela mortalha.
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(de Fragmentos de um Copista)

sábado, 18 de abril de 2009

CIV

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(...) CVIII No fundo da água, caranguejos mordiam os olhos dos suicidas com uma pedra amarrada no pescoço e os cabelos verdes de algas. CXIII Subi as escadas do pérfido palácio que tinha as cúpulas mais altas e atravessei sete pátios (...). A sala central era protegida por barras de ferro: os presidiários com correntes negras nos pés içavam rochas de basalto de uma mina no subsolo.
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CXIX Na mais remota sala de papiros, numa nuvem de fumaça percebi os olhos imbecilizados de um adolescente deitado numa esteira, que não tirava os lábios de um cachimbo de ópio. CXXVI Sei que não devo descer até o porto mas subir o pináculo mais elevado da cidadela e aguardar a passagem de um navio lá em cima
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CXLII O cais é alto e a água escura bate contra os muros, com suas escadas de pedra escorregadias por causa das algas. Barcos untados de piche aguardam no atracadouro os parentes que retardam a partida despedindo-se de familiares. CLXIII Já não se distingue o traçado da costa; há neblina; o barco atraca a um navio ancorado. (...)
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(de Fragmentos de um Copista)
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Fragmentos de um Copista

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“... vemos frequentemente as obras, por uma artimanha fundamental, serem sempre apenas seu próprio projeto: a obra se escreve procurando a obra, e é quando ela começa ficticiamente que ela termina praticamente”

Roland Barthes


I
Me fazia lembrar da vez, no mais desamparado e deserto dos subúrbios da capital, em que (ele) nos trancou em um quarto de pensão com uma garrafa de vodka, uma pedra de haxixe e disse que só sairíamos depois de escrever uma obra relevante.
Por volta do amanhecer, um dos gendarmes que nos vigiava a cavalo viu no umbral de uma antiga loja de tintas um homem com um poncho, deitado.(...)
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

ابو علی الحسين بن عبد الله بن سينا


Η Καινη Διαθηκη, Hê Kainê Diathêkê

精機光学研究所, Seiki Kōgaku Kenkyūj


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[Mânlio Severino Boécio, da velha estirpe dos anícios, nascido em 470. (...) Sob teodorico foi investido em altas funções administrativas, cônsul e magister palatii. (...) Dando crédito a uma intriga política, o rei mandou executá-lo cruelmente em Pavia, em 525, depois de ter padecido longa prisão.]

(Jacó de Veneza, às suas traduções, acrescentou comentários).

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A crónica de Eusébio, dividia-se em duas partes, sendo a segunda, chamada em grego, chronikoi kanones

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Avicena é o nome dado nas culturas ocidentais a Ibn Sina (Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina, Bucara, 980 — Hamadan, 1037), célebre filósofo e médico persa.

Ibn Sina escreveu perto de 270 títulos, entre eles a sua autobiografia, finalizada por seu discípulo al- juzjani, al-qanun (ou cânone), obra médica de conhecimento enciclopédico, mais importante em seu tempo que a obra de Galeno.

Dividido em 5 livros (i- generalidades, ii- matéria médica, iii- doenças da cabeça aos pés, iv- doenças não específicas de orgãos, v- drogas compostas) o al-qanun compreende cerca de um milhão de palavras.

Foi traduzido posteriormente, no século xiii, para o latim por Gerardo de Cremona e até ao século xviii foi o livro de estudo adotado nas universidades de Montpellier e Louvain

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A primeira peça de Menandro foi Orge, cólera, a que se seguiram mais de cem comédias, quase todas conhecidas apenas pelos títulos ou por fragmentos citados por autores antigos.

É do gramático Aristófanes de Bizâncio o epigrama: "Menandro e vida! qual de vós imita o outro?" que ilustra o enorme prestígio que Menandro desfrutava em seu tempo.

Juntamente com Pitágoras, foi defensor do vegetarianismo. Os dois, ao lado de Apolônio de Tiana, são os vegetarianos mais famosos da antigüidade clássica.

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(Porfírio foi o autor de uma biografia de pitágoras (vita pythagorae), que não deve ser confundida com o livro homônimo de Jâmblico.

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Deixo para após o carnaval Euclides, Diofanto, Hiparco, Erastótenes, Herón, Herófilo, Erasístrato, Cónon de samos, Apeles, o pintor, Dídimo, o músico, Dinócrates, Calímaco, Dionísio da Trácia, Longino, Maneto, Teócrito, Zózimo, Símias, Sinésio

-
(O Kanon (カノン) foi liberada para PC, e depois para Dreamcast e PS2, ambas as versões com as vozes dos personagens, com a exceção do protagonista. )

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Do Kanon de Policleto, o Doríforo, apenas conhecemos cópias romanas de bronze inicial. Como o Vitruviano de da Vinci, o Doríforo estabeleceu as proporções na escultura durante séculos.

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O cânone, a forma polifônica, em que uma voz corre atrás de outra, uma após a outra, uma retomando o que a outra acabou de dizer, enquanto a primeira continua à frente o seu caminho como aquiles para alcançar a tartaruga

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O produto original da companhia Canon, a câmera "Kwanon", foi escolhido como uma homenagem à deusa budista da piedade absoluta, Kuan Yin.

-
O Kanon de Ptolomeu é uma lista de reis que determina a cronologia do antigo oriente e a queda da Babilônia para os persas em 539 a.C.

-
Um cânone que é, ao mesmo tempo, retrógrado e invertido é chamado de cânone de mesa. Um cânone de mesa pode ser colocado numa mesa com um músico de cada lado, ambos lendo a mesma linha de música em direções opostas.

(Bach escreveu poucos cânones de mesa. )

-
(...)
-
Are you Kanon ?
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O diâmetro da entrada da caverna

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...............................................A Lucas Viriato

Não existe
coleção melhor de
esqueletos de baleia

mas meu pai caçava pássaros
e não viu a tarde em que
as legiões zarparam

e eu fumava de mãos molhadas
sobre os mortos
na lama cristalina de Delville Wood

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Homem de Okhotsk


I
O cárcere de pedra é gélido às margens do Mar de Okhotsk. Apenas um estreito feixe de luz invade a escuridão do espaço. O homem, no canto mais seco, luta contra a umidade e a neve: com uma espécie de agulha negra entalha desenhos complexos em seu corpo. Diante da sombra, a tinta é a única forma, ele pensa, de se manter aquecido e desperto.
O homem inicia a criação de paisagens em seu corpo; sua pele é deserta e vazia, o sopro de gelo entra pelo espaço das frestas e mesmo sem um agasalho ou idéia das cores, ele começa a pintar-se pelos pés com uma seqüência de oito praias escuras que acompanham os intervalos entre os dedos e que seguem para o interior dos pés como uma vegetação de arbustos e espinhos até converterem-se em uma densa selva tropical nas coxas e virilhas. A partir da cintura, a floresta criada pela agulha em seu corpo passa por uma transição até tornar-se uma savana aberta que se espalha sobre seu abdômen até a desnivelada aridez das serras que ele entalha nas costelas.
Sobre toda a parte inferior de seu ventre ele delineia um grande e calmo mar interior abastecido pelas águas de dois rios que nascem na ponta de seus mamilos. Fontes, lagos, regatos e riachos são criados acompanhando alguns setores do sistema circulatório e o homem contorce seu corpo como um circense para poder cobrir todo o resto de seu tórax com uma vegetação agreste alternando tundras e desertos.
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II

São poucas horas sem o vento gélido no rosto; é preciso aproveitá-las para corrigir imperfeições, redefinir nuances: Nos pés, beirando as praias e baías, o homem cria uma nova cidade portuária cercada de bosques de palmeiras e bambus. Em seu rosto entalha uma espécie de taiga siberiana, onde eventualmente se destacam contornos de leopardos brancos ou ursos do Himalaia.

Nas fronteiras de seu pescoço tatua uma série de planaltos e glaciares se estendendo até as orelhas, onde ergue indistinguíveis precipícios. O frio domina todo espaço da cela e uma espécie de cerração glacial impede o homem de sentir com clareza a grande área de charcos em que se afundava seu braço esquerdo durante um breve momento de desatenção, mas é tempo suficiente para seu braço torna-se um campo fétido e infeccionado e ele então, como que para proteger-se de uma desventura térmica, se põe a drenar seus braços com diques e canais.
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III
Amanhece outra vez embora ele não perceba a pouca variação da luz no inverno ártico; o homem reúne suas tímidas forças e se força a começar um largo projeto de irrigação que planejara na véspera: acabar com os áridos contrastes de seu tronco, transformar seu abdômen e as costas em um mosaico de culturas que produzam de vinhedos, queijos, trigo e mel até laranjas, rosas e resinas. Nas nascentes de seus mamilos cava poços e minas d'água e agora manadas de cavalos e gado atravessam anualmente seu tórax para serem vendidas no sul ou nas fazendas do dorso.
Às margens do mar interior de seu abdômen costura com a agulha um próspero centro de veraneio onde espalha hotéis sofisticados, boutiques de luxo, quadras de tênis e um belo cassino de tapetes aveludados. Esculpe seu pênis como um furioso vulcão cercado por florestas de pinheiros em cujas encostas se espalham ruínas de antigos templos destruídas pelas seguidas erupções de magma branco.
Em sua nuca o homem consegue criar, mesmo absorvido pelo sismos e pelas temperaturas de Okhotsk, uma suntuosa cidade-estado de avenidas largas, plátanos em fileiras, restaurantes nas calçadas; e mesmo tendo já perdido a sensibilidade nos dedos, ele entalha com precisão na cidade, clubes de campo, escolas de música, academias de arte, bibliotecas, hipódromos e na enorme praça central de sua capital ele desenha uma suntuosa gare.
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IV
O homem sente um estranho formigamento nas extremidades na data em que começa o grande projeto da expansão corporal ferroviária. Primeiro, constrói a locomotiva que liga as vilas caiçaras na planta dos pés, atravessando as selvas, até as cidades das colinas localizadas nos joelhos; depois um custoso empreendimento conecta este primeiro ramal da estrada de ferro à tímida estação de trem situada nos ducados estabelecidos às margens das águas do umbigo.
Da capital desenhada em sua nuca projeta uma enorme ferrovia que seguindo os montes de sua espinha dorsal, atravessam seu corpo de norte a sul, passando por campos e vinhedos que se estendem pelas encostas de sua dorsal e bifurcando-se na altura do cóccix. Um dos ramais da ferrovia segue até as aldeias de pescado e estanho do pé direito e outro atravessa um enorme túnel sob o joelho esquerdo seguindo até o porto localizado no dedo maior de seu pé, onda agora já se destacavam armazéns, feiras e atracadouros.
Delineia então dois novos grandes vales, dos ombros à cintura, entre a cordilheira da espinha dorsal e as serras da costela e batiza os dois rios paralelos com os nomes de Tigre e Eufrates e então irriga suas costas e cria uma miríade de cidades-estado.
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V
Quando terminou de tatuar cada centímetro do seu corpo com precisão pensou se já não era hora de desenvolver um pouco as cidades, aumentar a produtividade nos campos e o homem resolve então diminuir a área que concede às paisagens e cria novas colônias agrícolas, assentamentos rurais, serrarias e decide furar poços de petróleo em sua virilha e promover uma plena industrialização de seu corpo. Criou então um pólo industrial em suas nádegas onde concentrou toda a indústria pesada incluindo metalurgia, petroquímica e fábricas de tratores.
Com febre e rangendo os dentes em espasmos de frio ele fura em seu corpo a luz das lâmpadas nas antigas paisagens intocadas, fábricas de curtumes, gás e tinturarias; com fortes espasmos das agulhas em fúria, entalha motores em seu ventre, fornalhas, caldeiras e guindastes, estaleiros; sobre a natureza tropical de suas pernas, ergue grandes complexos minerais de borracha e ferro e o homem triunfante em seu tremor de artista, tenta pelo menos penetrar fisicamente a indústria em seu abdômen, a agulha lhe fazendo um excesso de carícias pelo corpo, ele rasga a própria carne para sentir os perfumes do óleo e do carvão.
O homem estabelece então uma breve divisão política das partes de seu corpo e estabelece uma Monarquia Constitucionalista ao redor da grande cidade-estado na nuca, nas pernas estabelece regimes presidencialistas, nos pés crescem prósperas repúblicas mercantes, nas nádegas estabelece uma confederação de feudos estabelecidos em torno de palácios fortificados, nas costas imperadores-filósofos lambuzam-se no bálsamo dos grandes rios.

Para seguir industrializando seu corpo, o homem pensa ser necessário grandes provisões de combustíveis e matérias-primas, então cria minas de carvão e ferro nas costelas e nos cotovelos, e estabelece uma guerra entre os diferentes estados que criara em seus braços. A campanha militar é desastrosa para os habitantes do antebraço, a resistência deles, desesperada, contra os generais dos ombros usa o método da terra desolada e irresponsavelmente tudo que há no caminho entre o ombro e os pulsos do homem se queima. Sua pele é destroçada ao longo de uma retirada apressada, mas o processo de industrialização ganha impulso na região das nádegas com a crescente demanda por armamentos.
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VI
Na hora se de deitar, sua mente passeia desde as colinas e pampas dos peitos até a garganta, as praias do abdômen, os capoeirões da cintura. Ele treme como um electrocutado e conforme treme ele sangra de suas repetidas investidas nos mesmos pontos; a taiga de seu rosto sangra em cascas, os campos de sua espinha dorsal sangram em placas, suas serras na costela em hemorragia e na umidade da cela só o que ele faz é misturar o sangue à tinta e à terra e ele, trêmulo e cansado das turvas feridas de suas paisagens, resolve refazer as cidades de forma que eles voltem a parecer justas e harmônicas e não aquela sujeira de poluição e lama; para isso saneia os rios contaminados pelos metais, moderniza as docas, urbaniza os cortiços e demarca parques para proteger os poucos esboços de paisagens ainda intactos em seu corpo.
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VII
Suas mãos deveriam ter permanecido como os últimos pontos intocados de seu corpo, era somente ali que o homem sentia ainda sua própria pele como a paisagem, mas as agruras do clima levaram suas mãos ao desastre do frio e o homem para aquecê-las se pôs a pintá-las com as agulhas como se fossem verdadeiros fiordes e então, desiludido com o desenvolvimento irresponsável das paisagens em seu corpo, com a insuficiência das medidas que tomara para conter a podridão, amargurado pela dor das indústrias que misturam tinta e terra à sua carne, ele resolve por fim promover um grande dilúvio em seu corpo e assim acabar com aquela imundície. Com a agulha começa a grande inundação e as águas negras vão tomando tudo desde seus pés, subindo pelo tronco e a última sensação que tem, antes do frio apagar sua sensibilidade, é sentir uma luta feroz entre um cachalote e um marlim gigante na cavidade funda e vazia de seus olhos.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Arrogância

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For Bunny

I
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Luis XIV dizia: "L' État c'est moi"

Gustave Flaubert afirmou: "Emma Bovary c'est moi"

Eu digo, de antemão: "Le Kanon c'est moi"


II
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Que quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser Kanon na vida.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sim, nós temos pradarias

.
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O rio segue a formiga que segue o garimpeiro que avança logo ali na escada; melhor: bactérias escutam notas de piano e vão dançando de ilha em ilha como cachalotes ao sabor dos tiros

Mais uma?!

Como pensava o ostrogodo na trincheira sob o rebanho da aviação aliada se a passagem entre o Negro e o Orinoco era ainda uma paranóia das revistas de viagem que , de alguma forma, ajudam a entulhar ainda mais de documentos esse nosso estúdio-quarto sete por dois?



PS. Ainda outra? ok

Respondi na data: Sim, nós temos pradarias, disse isso lançando mão do incêndio que duraria até as chuvas torrenciais: yes, nós temos pradarias

(...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Lembretes

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1- Marcar Vistoria Detran
2- Encaminhar documentação apartamento
3- Pressionar editora
4- Peça / Crockette
5- Ler a C. dos Tamoyos
6- Mitologizar a semana

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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Edifício Manhatã

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Faltou o tio que roubava cobre nas estradas de Friburgo, que levava nos cadernos tudo que escavava, em sua engenhosa urdidura de arqueólogo:
.

“ Tirem-me de Samarcanda
Arranquem-me as carvoarias
Deixem-me surdo, as chuvas,
várzeas arrasadas,
pele?
(...) ”

.

Distraidamente aquela tarde inteira ele correu até alcançar e dizer:
.

“Espere.
Não deixe que
esse vai-se ver
e não vê-se
sem
idade, o sol
queimando ao
redor das
olheiras,
a noite

enunciando
lógicas de
caramujo,
não deixe.
.

No ensaio

de prosseguir,
prossiga."


e o old man searching for a hotel found sua cama numa bottle de martini

.

sábado, 25 de outubro de 2008

Fumo.

.

Fumo.
.
É uma maneira
de dar sentido
ao vento

.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Quand

.

seremos

.

somos

.

ou teremos sido

.

?

.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Insulares

.

ser

de

ilha

.

da

.

ilha

de

ser

.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Milésias Ficciones

.


a Aristides de Mileto e Menipo de Gandara

.

(...)


O taxi parou bem em frente à portaria para trazer a mensagem:


“Guiarias um carro de guerra ou lhe parece melhor a idéia de liderar os arqueiros?”


E Tseu-lou pensou em voz alta: “Eu colocaria ordem nas fortalezas”

.


(Naquele trecho do rio inferior os pescadores

bebiam vinho em quantidades inverossímeis.

Era tida como uma terra de casarões nas barrancas) ..

.

Além de rico comerciante,
era também dono de cortiços
companhias de arrendamento

um velho imbecil

.

.

A verdade é que já não havia mais ninguém em volta


Só alguns olhos de perversa inocência, cebolas arrancadas sob um sol de espetos, o burro, de vértebras rijas, curvo sobre as dunas, e eu olhava a estrada, os calangos, as água de poço sem fundura e pensava que jamais alcançaria o acolchoado.

.

Foi o dia em que trepei na marquise :


um sétimo andar na zona portuária

.

. chovia a cântaros

.

a luz circular do refletor
sobre o colchão improvisado .

.


e eu queria seguir avançando
apesar da franca desvantagem

..

..

mas ela retrucou, precisa: ..

..

Mostre um milagre qualquer

e então desapareça

.

enquanto estiverem todos

surpresos

.

.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Baque Revisited

.
de sair
de dizer

de gritar
aos cadernos:

Vai Carlos, Coragem.

O Baque é macio
no tempo

.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

04:00 a.m.

.
I
Quando olhei
no relógio
as quatro horas

me veio o
imperativo de
deitar-se:

Aguardar
ansioso o
retorno

de mais
uma
madrugada.

II
Instauremos um dia de 120 horas:

- 24 hrs de manhã
- 24 hrs de tarde
- 24 hrs de noite
- 48 hrs de madrugada

Aí sim
surgirá
a nova

poesia
.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A

.
Retorno:

o que
o coração aguarda
a todo instante


Mais que o tempo


a

asa

.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Areh ianoh ventoeh lishah

.
........Semin eralizarse,.......
........fendana srochas,.......
........penet rarof óssil,.......
........lodod asfor mas.......

............prim evas.........

.


terça-feira, 30 de setembro de 2008

Estio

.
Assim,
sem qualquer
clima verbal
de recriar
uma epopéia
de casais separados
barcas
sem motor
implorando
generosidade
às velas

Assim
de secura
extrema
nas entranhas
sem nem
vinagre para
cerrar as
janelas
sem uma
donzela
pra comprar
uma caixa
de cerejas
alguma seta
para indicar
o caminho de
Aleppo
.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

do Ofício

.

"O coração vota

e o dever dita: escreverei."

Maiakovski

1.

Questão:

.

Se

as palavras

do poeta

são a sua

ressurreição

.

então a arte

consiste

tão somente

em saber

utilizar

.

a palavras alheia?

.

2.

Breve exemplo saqueando o cronista português do século XV, Fernão Lopes:

.

"E dois

de seus

escudeiros,

com temeridade,

resolveram

roubar

um judeu

que pelos

montes andava

vendendo

especiarias

e outras

cousas.

.

(e foi assim,

de feito,

que roubaram-no

de todo,

e (o pior)

mataram o

homem."

.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

da Ópera dos Fortes

(...)

"Tive de ser a cada vida, cidade na ponta dos bombardeios, velho canhão na ópera do forte

dizia adeuses, das inocências das portas do limbo, anjo sobre carruagens nas rotas do quarto vizinho

da velhice passada nas galés, estalagens na estrada provinciana, salvo das vagas pelo olhar furioso

nao mais o falso especialista em cartografias, homem da visão nos números, príncipe dos jogos de azar

não mais vagabundo de guerras vagas"

(...) 

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Abissínia - Carlos Andreas

Lançamento do livro Abissínia de Carlos Andreas nesta quinta agora, dia onze de setembro
Aguardo a todos.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Açoite

..
.
"pela manhã, que nos depara a
ilusão de um princípio"

Jorge Luis Borges

I

era o início do
grande caminho
quando parei
para interrogá-la

mas ela era
incapaz de responder
e já não havia
rastro de

ninguém

II

deixa então na
imensidão que
enxergas

e segue com
a claridade

como um
farejador
de patas

III

e lhe perfumou
a espada
aquela investida
dos cães
junto aos
camelos

ante o
frescor das
tempestades
de granizo

IV

criadas no conforto
gazelas conduzem
sem rédeas as
manadas para oeste

seguem-na as
formosas dádivas
ao primeiro
garanhão que
cruzar a
linha das
pastagens

mas no charco
a lasca de
vidro ainda
atacava
em cirurgias

mesmo nos
afligidos de
inflamações

nos olhos

V

galhos quebrados
amontoados de
entulho ruidoso

o vale confuso
nos arvoredos
de espuma

a soma das
tribos
nas margens

castigados
por um
açoite

permanente
de
torpezas

VI

apavorado
após cansaço
e suor
buscando

refúgio
no
mastro
do timão

perto de
onde
dormiam

o caldeirão
e a
vala

.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Basra VIII

.

Diversas
danças e jogos
e ensaios de
beligerância e ele
nos bailes aos
pares e ela
com certo receio
nas estampas
como da fama que
alguns carregam
a vida toda e

ele dono
dos campônios
na cintura a mania
e o propósito
dos saques
não negava-se
o prazer da
caça acreditando
que saber
profetizar o tempo
é ver a própria
dissolução e
cortejar o
próprio

fim

.

domingo, 10 de agosto de 2008

Basra II

.

Simples a
percepção de
cair na
lembrança e
perceber o
hoje há
cinco milhões
de anos
atrás

e o

mesmo exato
do tempo
olhando sem
ver aquelas
idéias que
eu
não sem
claridade
sou incapaz

de roubar

.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Basra V

+ um tango do cavalo apeado


1.
e
no último capítulo, com pesar do desterro,
o dia inteiro anteontem e passando
por um velho que de laboriosas
feições inundava seus contos

e de fronte assim meio
ofendido talvez por
eu estar à frente
um pouco à
sua frente

no palco

2.
depois
a noiva
a irmã da noiva
a primeira dança da noiva

o rancor no bairro
as zonas de meretrício

ás as às

3.
antes
as certezas valentes
nos bancos da igreja

as certezas valentes
de farmácia

4.
aqui
a festa:
jagunços
na porta
escutam
um velho
bolero
de ilha

5.
suas selas
sem estribos

com descuido
esquecem freios

e aí tudo se perde

como um grande
pranto

de arreios


.

Basra IX

.

1.
o Adão desgarrado

olhos como brasas
na pata das cebolas

2.
o mesmo, mesmo diante da
velha palmeira abatida

3.
e pisar na
terra num ar
tão feliz como
navio risonho
em vista de final
de paisagem

4.
de obsceno
aconchego
o ladrilho
na embriaguez
da solidão

no banho


quinta-feira, 10 de julho de 2008

Basra XXI

.

Mais alguns

lances no

terraço circular

mais alguns

três mil

homens na

defesa do fortim

mais um tanto a

profissão de

roubar tecidos

descuidar

das pedras

mais de outros bustos

nas rachaduras

persistência indigna

das pérolas

mais uma escada

que levasse ao interior do forte

brisa noturna

que nos levasse os

parágrafos


.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Basra IV


Quarenta e sete capitães arrebatados pelo jogo nos bordéis, e outras figuras enfileiradas no salão. o de caudalosos juncos que iluminava, na luz, os soldados, o qual com um vigor de sonolentos trotes. do cavalo apeado, sem cortesia sem lamentos sem cartas, os meses na consciência, o olho de fio aguçado. verbo de amplificação e montanha,

...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Basra XIX

.

O alicerce sulcava a

montanha mas

não era da

trilha visível

além do

que as gretas

trabalhavam para

distrair o viajante


só que refugiados

ignoravam as

regras do governo

provisório e

não me

surpreenderia se

envenenassem os poços

se pelo menos

refizessem as

portas

quando lá alcançaram

atrasados

um agrado

que jamais

me lembrava

o som daquelas

gotas no ar

condicionado

subterrâneo

da gruta e

o granito no

piso como

uma espécie

de consolo

para os órgãos

contra uma

reprovação que era

quase remorso de

havê-los destacado

e o último

capítulo pode

ser uma ponte

com o sétimo

mas talvez

ficasse melhor

com o terceiro

pelo significado

de serem

partes que

consumiram soldados

enquanto as outras

partes que transcrevi

falam do

último capítulo


de perto o mais

curioso daquele

que professei

o que assino


( levanta-se

testa a voz

com descição

na mesa) e


a rotina era

como se

esperasse de

um convidado

qualquer hostilidade

que justificasse

mostrar o punhal

mesmo que soubesse

que na frente

da mulher de

cabelos cacheados

estaria suado

e a prata não

reluziria tanto


então

chamar o

forasteiro que

dorme na

cocheira e

pelo braço

em lágrimas

a moça vê sua

torre de vertigem

à vista de todos

a moça vestida

a moça descalça

conforme o

plano o

movimento das

ruas arrefecia

mesmo sabendo

que seria um bom

dote para

o casamento

mas um estampido

chamou de volta

a atenção da

tropa e as

coisas não

passaram exatamente

como conto

as cores vivas

sem cessar

há dois anos

um após outro

e não me

surpreendi de

conversar com

eles na tarde

em que encontro

todos que sejam

alguma lembrança

e lutar um

ato só é

mais que todas

as horas dos

homens mais que

os homens

cujas pernas não

atravessaram o

campo de batalha

mais que

uma língua

secreta um

destino

um acaso que

toda negligência

deliberada

não ouvindo

clamor no

telhado subiram

para ordenar

mantimentos e

quanto mais

recordavam mais

nada se

compreendia

e os atos dos

loucos apareciam

como primores de

sensatez

e nas cavidades

onde se revezam

o túmulo e

florista e

o clima

demorava

numa grosseria

de léguas e

de madeira

pintada cantavam

os pastores

com seus

vocabulários de

palmeiras e

com pesar

a escrava de cabelos ruivos

desaparece

no solo da rua

e o microcosmo

do pensares

e as milhares

de aparências

segundo o

entendimento da

treva entre

o ser faminto

e o pedaço

de carne

na mesma baixa

lógica das

marés a

perder-se do

lado de cá

numa baía de

tais estranhezas

que nem o homem

das areias

nem o vizir

nem o de fama de covarde

nem o contrabando

e eu

disse-lhe: “falta

pouco para terminar

a obra, necessito

um último

adiantamento”

e ele responde

deixa que

inflem as

velas que aqui

concluirás esta

obra e assim

as autoridades

obedeceram

sem queixas

e Basra como

personagem central

pensou se a

sua inverossimilhança

seria de total

intolerável?

..:



.

sábado, 5 de julho de 2008

Basra XV


.

é estávamos chegar

aos ouvidos do

quarto

precisamente chegar

sem arreios lendo

quase um sido

simétrico

e atirei-me fosse

ter num que

enganei sobre

o que riscou

o exato lugar

do novo parque

de artilharia

na ilha ocidental

.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Basra XVII

.

quase tudo até

quase até a

memória

quase olhava sem

ver mas

recobrou o que

a princípio

lhe interessou


e eu que

não sem claridade

por um breve

catálogo mental

de balbuciante

grandeza

incapaz de

sair mesmo

com a umidade


.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Dicionário da Estepe - Citações do Dicionário Kazar

.

“Apenas trabalho com uma espécie de dicionário de cores e é o espectador quem cria, a partir desse dicionário, frases e livros, ou seja, imagens. Tu também poderias proceder do mesmo modo escrevendo. Não se poderia oferecer ao leitor um dicionário cujas palavras constituiriam um livro, deixando-lhe a tarefa de compor um conjunto a partir dessas palavras:”

Atlas

“... e sua pele, curtida e encadernada, como um grande atlas, foi instalada em lugar de honra na corte do califa em Samara; ela subsistia como uma enciclopédia viva dos kazares que...”

Babel

“Sabiam desde a infância que os pássaros de Salônica e da África não falam a mesma língua, que as andorinhas da Albânia e as do Nilo não se compreendem e que só os albatrozes se exprimem em toda a parte com a mesma linguagem”

Compreender

“Então o Arcanjo Gabriel falou:

_Preovibed Potasta se Oslobiti...*

E o monge compreendeu que o arcanjo se expressava saltando os substantivos. Porque os substantivos são para os deuses, e os verbos para os homens pois”


n * Tendo atravessado bebentes enfurecer-se

(e (Em eslavo eclesiástico)

Despertar

“Para se acordar completamente basta escrever qualquer palavra, pois a escrita é em si mesma, um ato sobrenatural e divino, não-humano”

Ensino

“...Mas Metódio deu a recompensa ao pior; e disse: “O mestre ensina aos bons alunos em pouco tempo. É com os piores que passa mais tempo. Pois é o destino dos mais rápidos passar rapidamente...”

Estilita

“E os turcos o colocaram no alto de uma coluna grega e três arqueiros miraram-no com suas flechas”

Fronteiras

“foi quando uma testemunha viu um grupo de pessoas que carregavam enormes pedras, perguntando: “Onde devemos depositá-las:” e eram as marcas fronteiriças do império Kazar”

Futuro

Disse que o caminho mais seguro para chegar ao verdadeiro futuro (pois existe também um falso futuro) é ir na direção em que teu medo cresce, e pintou os doze apóstolos em tartarugas vivas e soltou-as na floresta”

Grupos étnicos

“Os kazares têm o encargo de defender o estado e sua unidade, devem proteger o reino e defendê-lo, enquanto os outros naturalmente, os judeus, os árabes, os gregos, os godos e os persas instalados na Kazária, puxam cada qual para seu lado, para o seu país de origem”

Homem

“Este espaço entre seus passos é mais estreito do que a garganta mais estreita do mundo, ou então enganamo-nos, como todos aqueles cuja visão serve mais à lembrança do que ao chão sob os pés...”

Ícones

“e sabem ler as cores como notas de música, letra ou números, quando entram numa mesquita ou numa igreja, ao verem os afrescos e os ícones, soletram lêem ou cantam o que está pintado e representado; são a prova de que os antigos pintores praticavam essa arte secreta e contestada”

Itil

“Mas há também um lugar em Itil, a capital kazar, onde duas pessoas (mesmo desconhecidas) que se cruzam podem trocar, como chapéus, seus nomes e seus destinos, e continuar assim sua vida num novo papel”

Jornada

“E com uma nova identidade atravessou o lago Meot e a porta Cáspia dos cimos caucasianos, onde foi acolhido por um enviado do Kaghan que depois conduziu os missionários bizantinos até Samandar, no Mar Cáspio, a residência de verão do Kaghan, onde se realizava a polêmica”

Leitura

Seu discurso dizia assim:

“Ao ler não absorvemos tudo que está escrito, nosso pensamento tem ciúmes de um outro, e a cada instante ele o encobre, porque não há em nós lugar suficiente para dois odores simultâneos”

Localização

“Vivem junto às tribos que chicoteiam o vento, têm relva na cabeça ao invés de cabelos e cujo pensamento é glacial, na Panônia, às margens do lago Balaton, onde os cabelos gelam no inverno e os olhos sob o vento tornam-se como uma colher pequena e uma grande”

Mulher

“Que desvario entre os abissínios,

Os gregos, os turcos e os eslavos

Quando me aproximo de suas mulheres...”

Náusea

“Ele os observava limparem os narizes com os dedos, comendo o catarro e sussurrando preces, lavavam os pés sem se descalçar, cuspiam na comida antes de engoli-la”

Oração

“ e suas mulheres davam à luz suspensas no ar, penduradas na árvore santa; domesticavam os peixes na lama dos pântanos e mostravam ao estrangeiros um velho que rezava tirando um peixe da lama, e deixando-o alçar vôo da palma da sua mão como se fosse um falcão caçador”

Pierre Menard

“Sem dizer uma palavra, o velho mandou-o entrar numa cela e mostrou um jovem pintor, ele olhou a imagem e ficou atônito. O jovem mexia as sombrancelhas como se fossem asas, e pintava tão bem quanto Nikon; não era nem melhor nem pior do que ele, era o mesmo "

Poética

Num cântaro,

o que não é

o cântaro,

na alma,

o que não é

o homem

Escutai, então, vós

que vos alimentais

do silêncio:

Questão

“Um exército comparece ao chamado se não compreende o chamado do clarim?”

Riso

“O risco é simples quando o homem ri de uma única coisa de cada vez, dizia, é o mais barato; em compensação, o riso provocado por duas ou três coisas ao mesmo tempo é bem mais caro; mas este riso é raramente encontrado, como tudo que é caro”

Significados

“E o lugar permanecera por um ano virgem de toda sonoridade e ele explicou-me cada palavra de oito maneiras diferentes: o sentido literal e o sentido espiritual, a linha que é modificada pela precedente e a linha que modifica a seguinte, o sentido secreto e o duplo sentido, o particular e o geral”

Tempo

“E em ambos os anos se embaralham os dias e as estações como cartas de baralho, misturando dias de inverno aos da primavera, e dias de verão aos de outono, eles acreditam que um peixe sem olhos vive nas profundezas do mar Cáspio e que, como um relógio, marca o único tempo exato do universo”

Tradução

“E fez um outro alfabeto com letras gradeadas, prendendo como um pássaro essa língua insubmissa”

Universo

“Da hierarquia das diferentes mortes, na verdade, o único contato possível entre todos os níveis da realidade, onde as mortes, como ecos entre ecos, respondem-se infindavelmente...”

Visão

“ O olho é um alvo para os objetos que estão à nossa frente, são eles que miram o olho e não o contrário, é uma ilusão achar que nossos pensamentos estão dentro de nossa cabeça, a cabeça e nós mesmos por inteiro estamos dentro dos nossos pensamentos, não sou eu que misturo as cores mas teu olho”

Zero

“assim ele cria todo o universo a partir de si mesmo, depois o engole e mastiga tudo que é velho, cuspindo um mundo rejuvenescido sendo que a diferença entre dois sins pode ser muito maior do que a que existe entre um sim e um não”

.

terça-feira, 24 de junho de 2008

`Abd ibn Rawahah

.
A tatuagem nos olhos
a corda nos papéis
e a parede
arranhando os olhos
os olhos em tom
menor que a própria
rua aos pingos
nos olhos e a rua
com o tráfego
de repetições
na passagem
o papel
na queda do corpo
o corpo em que
o outro
brilhará
sozinho

.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Al-Musta'sim - 1258

.

"Vivo adormecido morto cansado,

de serra a coragem

de olhos a valentia"


.

..

domingo, 22 de junho de 2008

Gustavo Sampaio Street Blues - por Pedro Bastos

.

Mendigos

São Budas

Bêbados vagabundos & tristes

Crianças felizes


A luz que irradia nos une

Procura

Não procura

Quem procura

Se perde


Não procuro

A luz

Deixo pro escuro


.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

domingo, 15 de junho de 2008

domingo, 8 de junho de 2008

Paisagem - por Paulo Renato Porto Filho

.

A Manoel da Silveira Porto Filho


É pequena a humana vi(n)da,

rápida visita aos monturos do tempo largo

rio espesso

de profundo calado.

É susto-chegada,

ensaio do fim

Breve como o suspiro da moça

e a mentira da flor.

Seria uma concha?

Nesga que se alarga ao vento

e ao calor do vário movimento.

Promessa de cosmo, o corpo

não é invólucro da alma

Tem sua verdade

Tem seus líquidos e subterfúgios,

sua pressa.

Quem existir saberá ter-lhe sido

Mas é preciso algum desprezo,

alguma corda a se soltar antes que arrebente.

Mas quem sabe

quem lhe saberá o ritmo, marítimo segredo?

É sutil a humana brisa,

fôlego dos astros

na passagem.


4 de Junho de 2008

sábado, 7 de junho de 2008

.
* Dança de extinção no tempo


* Equação impossível da escolha


* Matemática tediosa da espera


.

Noite véspera da manhã

.

Banhada por canais

concêntricos

sobrevoada por pipas

de cidade grande

as pessoas

não me reconhecem

nas ruas

com o

guepardo

na coleira,

mesmo

aqui entre

os pórticos

onde por acaso

me abriguei

da chuva

.


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Oswald in Bahia


.

Bahia

mãe das canoas

sala dos remadores

verniz encrespado

das águas

tingidas


saveiros

ao relento

campos de

pesca ao redor

do sargaço

mar de galegos


veleiros criados

para o encontro

dos mestres

das saudades

de acesos

faróis nas fachadas


as árvores em

caldeirões de barro

cozendo as vísceras

dos ancestrais

e as ladeiras


.

Marechal Carleto Gaspar 1841

Marechal Carleto Gaspar 1841