quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Dentro da Canção Eslava

...


os estrangeiros teriam mantido silêncio durante toda a conversa.
Falava-se de uma história de três caçadores de sonhos, que haviam
se perdido entre o sono e a vigília. Na verdade, todos os três
se encontravam em um sonho espaçoso,onde pisavam na areia
e sentiam frio sem abrigo da chuva e do vento. Cães selvagens
latiam a espreita e Mustafah calava tranquilo, sabendo que os
cães sérvios mordem antes de ladrar.
Esperavam ansiosos o amanhecer, quando poderiam apanhar
o próximo sonhador e fugir das margens gélidas e imaginárias
do Volga


...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Breve devaneio


Hierarquia para os pratos copos panos e talheres

Casas músicas artes paisagens climas e mulheres

belezas autores mortes putas generais filosofias


Para os metais as formas os líquidos as zonas, hierarquias

materiais ingredientes sentimentos de países de loucuras

De mães de fés de pós de ervas de cataratas de culturas


Hierarquias de cidades sabores de segredos crimes e gozadas

De beijos e bucetas de falos violências de peixes de estradas


Hierarquias, onde me encontro?

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Sobre o meu caminho

.

i

eu nasci lá
não escolhi o lugar

acorrentaram-me ainda criança
e depois lançaram-me no mundo com as correntes

eu nasci lá
não escolhi o lugar
como canção que toca nas docas


ii

voei atrás dos versos por entre estrelas e tropas de linha
procurei nas casas sem dono ou guarnição
investiguei canhoneiras lâminas e esfinges
nas praças murchas entulhadas de vento e solidão
busquei nas nuvens cinzas e grosseiras
nas casas de formigas rudes
nas valas das cidades-macieiras
nas gaiolas dos bazares sujos

eternamente buscando

.



Meu riso
aprendeu sozinho
seu significado

(saber dizer minha alma)


14.02.05

domingo, 16 de setembro de 2007

Sob o Café de Portinari


A terra e o pó sepultaram a manhã que inventei

apagaram e deixaram erma de sentido

os tocos calcinados cantaram como espíritos de horror

e seu coro aspirava a inundação seca pela boca


tudo nesses homens brônzeos está oculto pelas sacas

resplandece tão somente uma aura de incêndio

uma garantia de velhice reservada para a vida toda

um áspero santuário do trabalho sobre as costas


o feitor de gola rubra e flamejante língua, ele próprio cativo,

cruel com a moça dos pés inchados que sofre sobressaltada,

atravessa de olhos baixos a fúnebre dança das cicatrizes


Estilhaços de sangue como pétalas de trêmulas vidraças

Arrancados do espaço como signos na tela do pintor

ó escuro, tumultuado escuro dos céus, nos responda:


a que deus podemos aspirar?



sexta-feira, 14 de setembro de 2007

só pensando


(Mesmo onde os homens estão presos;
e a vida é feita de intrusos

mesmo se não há sorrisos nas crianças
nem amor nas mulheres

mesmo se não outro mundo
se é tudo essa dureza e doutrina

mesmo esse rude apetite
de coisa eterna que assombra

mesmo se for tudo vulto encolhido
golpe de vento e neblina

o choro de amor segue preso nas celas)


terça-feira, 11 de setembro de 2007

Datura Inoxia

[


se hoje, o que acontece é tarde
sabemos ser o que só hoje podemos
e o sinal é ali estar o que se vê

paro sob o voo e assim ser
também o que não somos
só o caso assim de acontecer

morar, como quem vive só
e ainda saber ter também
o sol sob o assoalho

e, bom, pude estar talvez
mais disposto, mas são ases
de estar assim tão perto
e não...

sabe, é só vendo que se apreende
se no quarto estou, solto em vigília
vale dormir jamais, pra ver se entende
e não...


]

domingo, 9 de setembro de 2007

Linda cidade, Montpellier! Cidade das Belas mulheres!

a sua vida pacata, seus subúrbios, sua gare
Montpellier, meu coração,
em cada canto de minh'alma uma lembrança tua

ah se fossem casuais todos os encontros
se aquelas praças, ruas estreitas, se tudo aquilo existisse
se nós ao menos tivéssemos feito aquele show de jazz que tanto ensaiamos...

alívio eu sentiria se caisse na ilusão de que um dia vou reencontrá-los
que um dia viveremos tudo juntos de novo
que um dia terei o mesmo quarto de hotel reservado...

me levanto da cama absolutamento doido:
a angústia das horas e lembranças
os pensamentos, casos, vésperas, sonhos e obrigações

não, não pude dormir
morto de uma fome abstrata
de coisa que não se pode mastigar

ah, Montpellier, é você!!!!
eu como um pássaro pelas cidades do mundo
meu coração acolhido sob plátanos nas praças

e todos os beijos na boca que tem me dado a vida

27/09/2004


(Existe um livro de Arquitas de tarento, do qual só nos chegaram fragmentos, que trata da música antiga; seu nome é "Harmonia" e foram trazidos até nós por Porfírio e Estobeu. )

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Poesia de inverno


um binóculo mordaz para enxergar o silêncio desaprovador dos meus colegas


olivais contemplativos sob o fumo das lareiras ouvem

os choupos aposentados no pântano austero a rezar e a

noite, traçando devagar o sinal-da-cruz nestas vidraças



Sim, inverno, estamos vivos!


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Uma carta em Homero



"Comoveu-se o esposo e disse, fazendo-lhe carinhos: ‘Anjo sem ventura, por mim não faças sofrer teu coração; ninguém me fará baixar ao Hades; homem nenhum, porém, foge à Moira, desde o dia em que nasce. Agora volta para casa, cuida de tuas coisas, da roça e do tear; vê que as fâmulas também às tarefas se apliquem. Aos homens troianos - e sobretudo a mim - incumbe-nos a guerra’.” Ilíada VI, 484-493 [trad. Haroldo de Campos]



terça-feira, 4 de setembro de 2007

Veredas


dentro de dois anos

de uma nau escura em Ipanema


a via-láctea se solta no espaço


Junto um corte de fazenda; um bom par de sapatos


guardo tesouros guardados no cerebelo


e como Alexandros sigo


a conduzir homens e carroças

pois aqui, não podemos todos ser reis



segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Sobre as línguas indo-européias


Vocábulos peregrinos caminham sob tormentas, por trás alongamentos silábicos respiram sons e cometas; consoantes da estepe e da marcha seguem a frente como arautos sem soldo, protegidos por oxímoros armados que cruzam fronteiras rosnando grunhidos de mouro; no encalço fileiras de hiatos a arrotar elipses de lua a engasgar sopros sem assentos a pronunciar como gritos de rua aaaa, até dizer-se o és! os dialetos usados adormecem vibrantes nas picadas, as vogais exaustas se recusam a seguir pro norte; os homens de ânforas vultos pelos mares, largam-se nos planos e alturas em enormes faustos a adorar o discurso eterno da seta e da tocaia; plainam surdos sob as ondas das palavras, com suas bússolas que trastejam emperradas nos cordames, suas setas viajando sem ponta ou atenção, suas palavras que não servem para dar nome às coisas...


domingo, 2 de setembro de 2007

As aventuras de Dom Enrico Torres no velho mundo



Tangerinas rolam em Knóssos

ardendo frio com os mendigos de Bruxelas

cercados por turbantes roxos no porto em Gibraltar

só não congelados porque havia haxi em Montparnasse


Tangerinas sopram em Narbonne

ao salivar kebabs de Tânger e Perpignan

esperando fiança numa saleta em Carcassone

estamos presos num hotel cristão em Amsterdam


Tangerinas crescem por Atenas

nós brigando por Lisboa nas ladeiras

sondando dealers nas esquinas pelo Thames


tangerinas voam em Montpellier

éramos família na Piazza de Espagna

ouvindo o caetano mais puro nas areias do Sahara



segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Uma Canção



dentro da tarde há um céu
debaixo dos troncos e só

dentro do homem a tarde
casados dilúvios e nós

dentro da tarde um menino
vestindo uma espécie de rei

dentro do rei um fascínio
cantando a canção que guardei


terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sobre o caiçara


O mar entre dois versos


se alarga e transborda os versos

os versos a soluçar se exilam;


O caiçara sem versos para viver

abandona a estrofe


e tudo vira mar


Uma ideologia


Só os excessos conduzem a sabedoria


Viver é morrer nas selvas do Cambodja

ou aos pés dos muros de Jerusalém


Todo o resto é mistério




segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Fragmentos Carletistas V


...Em homenagem ao visitante cantaram uma canção de final de tarde outra de quando o rio chega no mar e por fim uma sobre a primavera no São Francisco, quando a canção terminou selaram os cavalos e foram caçar raposas...


Fragmentos Carletistas IV


...

i

O combate já durava dias e Pinheiro se recusava a recuar de suas posições na margem norte do Rio Pardo.

Suas baixas já antigiam milhares e os reforços de Porquinho tardavam em chegar; Carleto jazia com febre nas ruínas de um hotel em Prado e a nova infantaria do Coronel Franklin avançava com seus carros de combate indiferentes ao fogo dos morteiros e canhões Carletistas.

Pinheiro resolveu recuar quando a névoa prevaleceu na escuridão do inverno baiano; com o auxílio do Coronel Campos Bastos, levou seus homens em balsas improvisadas até a margem oposta.

O contingente, no entanto, estava muito enfraquecido para deter o avanço de Franklin. Haviam poucos soldados sobreviventes da 5ª Infantaria Carletista; da 4ª Divisão Blindada de Belmonte e da 9ª Artilharia de Porto Seguro...


ii

Os campos Bastos eram charcos ao sul de Canavieiras

Chovia muito aquela madrugada e mesmo assim Pinheiro ordenou que seus homens avançassem através das planícies que cercavam a margem do rio. Sob uma chuva de balas e artefatos eles atravessaram o longo espaço que os separavam das últimas fortificações carletistas e ao anoitecer já se encontravam protegidos.

Carleto Gaspar alcançara seus homens em recuo pela manhã, e, enfurecido com a retirada, decidira lançar um contra-ataque imediato para reconquistar Canavieiras

Obedecendo as indicações de Carleto, a infantaria avançou até uma pequena depressão que margeava os charcos e do horizonte mudo surgiu o grito absurdo que antecede o fragor das batalhas.

Amanhecia e um sussurro surdo ecoava do lado de fora dos muros. Os soldados que permaneciam deitados no hospital da campanha, impossibilitados pelos ferimentos de levantar-se, acompanhavam com tremor os estouros e estalos e quebrantos que escutavam a distância.

“Chove fogo, gritos e sangue” gritou um deles com o evangelho nas mãos "Nínive sucumbirá sob seus próprios males" repetiu profético o aleijado. No campo, sob os olhos fatigados de um comandante desacreditado, o exército desmantelado penava uma fuga incerta; às pressas, tudo quebrado, os oficiais corriam e fugiam rio acima com botes já preparados e no meio da carnificina os homens pensavam que aquilo tudo era pior do que quando era normal a vida.

Quando a derrota já se mostrava definitiva, Carleto recuou em segurança sob a guarda de Pinheiro e por uma trilha discreta atingiu seu quartel-general em Belmonte logo ao entardecer. A noite, mesmo cansado, não conseguiu dormir, contava de um a cem e dobrava o dedo mindinho; contava de cem a duzentos e dobrava o seu vizinho; assim por diante, até completar mil e ter as duas mãos fechadas. Lá de cima escutava os tiros distantes e as descargas de artilharia e então começava a contar novamente...


Fragmentos Carletistas III


"De todos os vadios que andavam roubando os portos,

aquele tinha os dentes apodrecidos

e as gengivas vazadas pelo bolor dos mares"


Carleto Gaspar em depoimento ao Padre Roma, Salvador 1813.



Fragmentos Carletistas II


(Na estação em que as folhas começam a cair, vinha descendo o São Francisco uma triste e jovem mulher a procura de seu amado que partira pra guerra.

Em cada outono, quando os pássaros começam a contar os peixes nos riachos, esta bela jovem despedaçada tranca-se num quarto escuro onde permanece até que toda névoa se dissipe; retida num fio fixado em um lugar que só ela conhece. Naufraga mais a cada ano e pela mais egoísta das razões.)




Fragmentos Carletistas I


|| Am7(9) || ||F7M/9 E7/9+|| ||Cm7(9) F7(13b) || Fm7(9) ||


Enquanto caminhavam através das florestas escuras de Monte Pascoal, Carleto lembrava-se do primeiro tiro que havia escutado naquela mesma floresta durante uma tempestade em que havia se perdido dez anos antes; Passados tantos anos, cruzava aquele mesmo caminho acuado pelo peso dos inúmeros soldados que haviam tombado em seu nome. Ávido pelo sangue dos seus inimigos que se escondiam nas matas densas ao norte do rio Corumbau.


Ouviu-se na montanha o ruído de um machado batendo em um Jequitibá, pois o ruído é distinto se o machado bate em um Jequitibá ou numa figueira. Foi, de fato, a primeira e única vez em sua vida que Carleto Gaspar sentiu medo. Fazia frio demais e isso não era comum na primavera baiana. Carleto avançou a frente de seus homens através de selvas intocadas e de caminhos desconhecidos, até uma imensa gruta que se mantinha totalmente escondida pelas árvores centenárias.


(Na imensidão escura da caverna distinguiu-se uma luz longínqua.)




sexta-feira, 17 de agosto de 2007

- Carta ao Vesúvio -



No salão escuro do tempo
onde dormem altares dos
deuses esquecidos
um jovem conquistador
vêm refrescar a sua taça

lá dentro estão os foles
os poetas e os cantores
as margens e correntes
as cidades e os quartos
lá fora as ilhas urgem

Nos troféus ao fundo
se vêem os mares e esquadras
um enorme atlas do mundo
com todas trilhas e estradas
os dias passados nas pinturas

o homem e o conquistador
estão no breu
pelas estradas do mundo
bebendo fundo nas taças
vivendo nas margens ao centro

os enormes deuses e mapas
respiram foles
nos quadros
no salão escuro do tempo.
Em toda estrada do mundo

os homens estão no breu
em todo quadro nos quartos
o breu está nos homens
o homem e o breu
na escura escuta do tempo

os homens e o breu





quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Por um projeto estético:

!

por Clemente de Alexandria 254 d.c.


Ei de fundar ao final dessa era o neo-paganismo lusitano; uma fusão entre o pessimismo alemão e a mitologia babilônica, com sutis influências do barroco espanhol; a mescla entre a seiva bucólica do romantismo eslavo à vivacidade cruel das estepes asiáticas; a melodia da dramaturgia macedônica entrelaçada ao realismo minóico. A necessidade de que se resgate o ímpeto dionisíaco, aquele jovialidade helênica, as danças magyares...


Um neo-paganismo como um processo anacrônico, agregando à cultura dórica elementos estéticos lacedemônios e floreios sagrados da lírica persa...


(O ideário só virá a tona, quando resgatarem os escritos etruscos perdidos no fundo do Adriático e os documentos fenícios de Tiro e Cartago perdidos na costa ocidental africana pela frota do Faraó Pepi II...)



(segue adiante)

O califa de Samarra

.

O sonho da Pérsia é o Mediterrâneo

O Cáspio não lhes basta



o Índico não deslumbra os olhares como o mar ocidental


(...e dorme a velha literatura das canções populares...)



.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

.

Foi tarde que percebi



que vosso mundo ainda é longe


.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ode à Enciclopédia Universal dos Passos -


I


ó valente enciclopédia azul

sempre um chão sob os pés

mas o chão sobre as nuvens


ó terna companheira das horas de vou

eterna mensageira do conflito e da caserna

interno exílio do instante vivo aqui em outras eras

inverno do perímetro das vilas e pântanos bubônicos


ó coléricos dervixes de tuberculosas genitálias

ó pestilentos homens de gengiva pura em sangre

ó veleiros de cascos vazados de nulas provisões infantes

ó calçados nas panelas, sopas de couro duro e cordame


valente e longeva enciclopédia azul dos mares

sempre um chão sob os pés

mas um chão sob as nuvens


gangorras de tifo a balançar balanços no porão de seus volumes

ó amarelos negros, embrulhados roxos

ó navios de agouro morto dos mares e criméias

ó navegadores sombrios cruzes cortes cooks e pizarros


ó fredericos catarinas dantons e flavius josefus

ó assurbanipals dioclecianos leopoldos e josés

ó lucrécios caminhas cochranes e kublais

ó aníbais e rolandos bolívares e drakes


valente e imortal enciclopédia de catedrais e cânticos

um chão sob os pés

mas sempre longe do chão


(procissões douradas arrastam-se nas estradas como grande lagarta sobre rodas,

e os sinos de bronze cantam nos cabrestos como lutos perfumados

mármores da numídia escorrem sobre aquedutos de âmbar da dalmácia e

num tapete mágico, pelas enciclopédias e papiros

vou cantando)


ó bélica arrogante, sedutora enciclopédia azul

um chão sob os pés

mas sempre um longe do chão


na casa de campo do lado de fora da oficina e do assoalho

Passam triunviratos, grandes pestilências, comboios de flechas do inimigo

despertam incursões de normandos no vale do gâmbia e zambeze, incursões de Conrad pelo rio maior

ó sultões escravos, exércitos do volga, generais com febre nas estepes


avante cimitarras aríetes aljavas e butins

avante cavaleiros beduínos de gaza e ouarzazate

adiante políticas de alfabetização tiranos e inquisições

Adiante baías de piratas festas de bestas endêmicas


veterana e ancestral enciclopédia azul dos passos

sempre um chão sob os pés

mas sempre longe do chão


louvo a a ti castelos do loire lochstedt puerto de könisberg

muralhas de krak dês chevaliers cercos a liège abrigos da linha maginot

ordens teutônicas na costa do esqueleto refeitórios nas abadias da moldávia

pequenos feudos de sumatra cheirando louco o almíscar toda madrugada


louvo aos amigos e seres que fazem a enciclopédia viva como um mapa em tamanho natural

louvo os que amam montes sequóias e todas as árvores de porte

amo os que habitaram birmânias rodésias as pontes de porto velho

louvo toda a península malaia o estreito de amur e dardanelos

as passagens do oxus e corinto as mães os gratos e os capazes


mãe amiga e amante, querida enciclopédia azul:

sempre um chão sob os pés


mas sempre longe


(e ainda segue...)





quarta-feira, 27 de junho de 2007

- A grande ofensiva -



Ao amanhecer as descargas de fuzilaria abafaram o esplendor dos fogos de artifício e os gritos de terror anularam a música e o júbilo foi aniquilado pelo pânico; as tropas entravam em cada casa da cidade colonial e saiam com os bolsos cheios de dinheiro queimado, que esperavam em parte recuperar; logo havia nas ruínas de Porto Seguro um enorme comércio de notas queimadas.

No segundo inverno que passava na cidade, o Marechal estimava em dezoito mil soldados o total de suas tropas somente na Bahia e quando o terceiro inverno começava, ele marchou para o norte. Todas as cidades e vilarejos entre Porto Seguro e o Rio das Virgens se renderam sem oferecer resistência e duas semanas após começo da ofensiva, Carleto já marchava com seus homens pelas largas avenidas parisienses de Belmonte.

Carleto seguia à frente de seus homens, montado num corcel branco e logo atrás dele vinham seus oficiais, os granadeiros, a infantaria e por último as colunas de artilharia rebocados por touros pré-históricos e Negros gigantes do Guiné que fechavam o desfile.

.

- Le Grand Hotel Beaumont -



(Sob o crepúsculo)

No terraço do Grand Hotel Beaumont, permaneceram todo um dia a discutir as estratégias da guerrilha ao som das multidões inundando as esquinas e calçadas a gritar o nome de Carleto Gaspar.


General Porquinho Macedo, segundo homem na hierarquia Carletista tentava, irredutível, convencer os oficiais a levar a guerra até Caravelas, ao sul de Prado; ele afirmava que sem uma forte resistência nas terras ao sul, o império Carletista estaria permanentemente ameaçado pelas forças portuguesas. Caravelas era uma cidade à beira de um rio profundo e poderia ser facilmente defendida com a construção de uma extensa muralha de terra no seu lado sul.

Porquinho que dirigira todas as operações de Guerra nos Sertões, foi na opinião de alguns historiadores, o grande artífice da derrota dos carletistas. São insuficientes os registros históricos sobre este personagem, que se acredita tenha nascido na cidade portuguesa do Porto, no início do século XVIII.

Conhecedor das técnicas de combate dos indígenas foi apelidado de "mestre das emboscadas". À época da Conquista de Valença, teve grande sucesso em conter o invasor no perímetro da cidade, graças ao emprego das táticas de guerrilha indígena, praticando emboscadas, que voltaria a empregar anos mais tarde, em Pernambuco. Nessa época, alcançou a patente de Capitão, e após o cerco a Salvador ganhou o título de General.

Dois anos mais tarde, liderou uma força de 1.200 Baianos, armados com pistolas, mosquetes e flechas, numa emboscada em que derrotaram 2200 portugueses melhor equipados e treinados.

Capitão Pinheiro, o homem de confiança de Carleto, desprezava as palavras de Porquinho; mineiro nascido no Arraial do Tijuco, filho de escravos africanos, defendia a conquista dos sertões; ele acreditava que uma vez conquistadas as ricas jazidas de ouro e diamantes espalhadas pelos vastos sertões inexplorados, as nações estrangeiras venderiam seu apoio à causa carletista, e haveria receita para a compra de armas, navios, uniformes e suprimentos.

Segundo sua retórica, existiam dois caminhos paralelos que levariam à Glória e à Vitória: um grupo deveria ser destacado para subir o Rio das Virgens em busca de uma caminho para as Minas Gerais, e outro deveria atravessar o Atlântico e conquistar as desprotegidas reservas minerais de Angola.


Carleto parecia enfeitiçado pelos planos grandiosos de Pinheiro:


atravessar o Atlântico e tomar as minas de diamante em Angola..


Porquinho afirmava que querer conquistar um território na África era um grande delírio, mas Carleto era ousado, impulsivo e nutria sonhos de ser a reencarnação de Aníbal, o cartaginês. Findava a noite e o impasse permanecia.



(A vitória sobre os portugueses às margens do Rio das Virgens foi um momento decisivo na guerra, um triunfo para os Carletistas, que compensou o fracasso do ataque ao espírito santo.

Atraídos pelas promessas de glórias, riquezas e liberdade, milhares de camponeses, escravos e miseráveis migraram para o sul da Bahia, no intuito de se juntar às Forças Carletistas.

Os Arautos gritavam pelas estradas:

“Hoje quem diz Pátria

Diz Carleto!”)


e assim foi...




.

.

Pedrinho dormia entre os bancos


Eu permanecia desperto


a viagem toda atento

Admirando o mapa da ilha


Pouco antes do amanhecer

O imponente Minos ancorou na

Pequena baía de Heraklion


Os motores do navio foram desligados

E eu pude ver através das janelas


A silhueta desconhecida


Das nevadas montanhas de Creta


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terça-feira, 26 de junho de 2007

- Lamentações de Jeremias -

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Jeremias já previa a cidade de Jerusalém reduzida a escombros, as jovens violentadas, as crianças a implorar por um gole d'água ou um pedaço de pão, com seus lábios febris, os cães torturados pela sede, a lamber o sangue de seus amos, e os corpos dos mortos e dos agonizantes empilhados pelas ruas como estrume.

Sabia o que significava um cerco àquela época, e passava noites e noites a sonhar com um pequeno vilarejo, sem muros, sem soldados; de frente prum mar azul claríssimo e prum céu abafado. Sonhava com aquelas imagens desde a infância, mas jamais se lembrava do sonho na manhã seguinte. Com a fome, porém, reparou que o sonho se tornava mais longo e profundo e lembrava-se ao acordar de ver homens de roupas coloridas com barras de um metal brilhoso nas mãos...

Até o dia em que foi visto em seu sonho...


.

- Samarkand -

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... naquela madrugada, Mathias voltou sem recursos para o seu refúgio no mosteiro do Monte Sinai. Em uma semana estava tomado pela febre e não podia mais roubar galinhas.

(NOVOS TEMPOS INCERTOS,
DURANTE A VIAGEM
ATRAVÉS DOS BAIXIOS
MORRERA ANONIMAMENTE

E NÃO REPARARA...)


No fundo, nunca havia acreditado na legitimidade da vida,



Desde sua primeira morte em Alexandria, havia se refugiado nas selvas escuras da Etiópia e continuaria até o fim dos tempos, se não houvesse escutado sobre a guerra nos balcãs.


DESCEU O NILO NUM BARCO DE PESCADORES NÚBIOS


De Alexandria correu num cargueiro turco que o deixou às portas do Danúbio no estreitamento do negro mar



Tomou o elixir e a Capadócia



ESCREVEU UMA EXTENSA CARTA PARA UM IRMÃO DESAPARECIDO



DUZENTOS ANOS



Luta com essa febre

%


- Chatêlet - Montparnasse -


"E agora o que será da minha viagem?

um imprevisto é a única esperança"


um grande artista colombiano

com residência em Paris


o outro vaga pelas ruas do sul

procurando quem compre seus discos


Mateo é cozinheiro de restaurante

em algum balneário do Brasil


Oscar eu não sei

deve ter se mandado


com alguma sueca, talvez mais pro norte..

fumo um haxixe e lembro de vocês


sentados nos trilhos depois da meia noite

sempre com fome e sem dinheiro


mas atrás do traficante árabe do Senegal

sob as praças de folhas douradas em setembro

de dentro vendo as árvores secas no natal

e Nicholas o tempo todo a falar de Átila, o huno


"la pelouse ne poussait plus

aux chemins qu'il passait"


segunda-feira, 25 de junho de 2007

- Wien -


"Que inquietação profunda...
que desejo de outras coisas,
que nem são países, nem momentos, nem vidas,
que desejo talvez de outros modos
de estados de alma
umedece interiormente o instante lento
e longínquo!"

A.C.

sábado, 23 de junho de 2007

- Fragmentos -

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Suas roupas de renda manchada eram regularmente enviadas de Porto Seguro, onde vivia com sua mãe, para Ilhéus, para serem lavadas e passadas sob a vigilância de seu pai


Na primeira badalada do sino ele estava em Trancoso; na segunda em Leipzig e na terceira chegou a seu corpo



Carleto instalou Lobato na sua propriedade em Jequié, uma casa cujos cômodos estavam sempre cheios de cães mais apressados para matar do que para comer




E quantos guerreiros feridos por dardos de bronze, com suas armas ensangüentadas, vinham de todas as partes ao redor da muralha



Cento e vinte pares de ouvidos mortos escutavam com grande atenção



Qual a diferença entre há pouco e há mil anos, agora que as coisas são como são?



Joseph esperava a chegada de seu irmão José em Bizâncio, assim como os judeus esperam o Messias



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- A Marinha -

.


Faróis distantes, de luz quase inexistente orientavam os marujos em sua primeira viagem através dos oceanos. Quando o cais se afastou e a linha do continente sumiu, uma tristeza visível se apoderou de toda a tripulação.


Sob o comando de Pinheiro atravessaram as águas antigas da esfera terrestre e em quarenta dias atingiram a Costa da Ilha de São Tomé. Em uma semana haviam saqueado todas as vilas, cidades e povoados da costa ocidental da Ilha.


Chegavam famintos, cansados, bárbaros, como uma horda de godos sujos
e fedorentos e abriam e destroçavam os armários, gavetas, portas e cadeados de todas as mansões e vilarejos. Até que alcançaram as ruas largas da capital; e queimaram tudo que era madeira naquelas terras curtas e deixaram tudo que era verde e alegre como terra cinza, seca e estéril;


Dali atravessaram até a costa do atual Gabão e durante 4dias e 4noites saquearam e queimaram a cidade francesa de Libreville...



.

- Clarice de Campos au Leme -



"Ser esquecido de que se existe!"



é do alto do pensar desse esquecer

que os deuses dos deuses dominam o mundo

ser alheio a si mesmo

nem arte nem silêncio


A.C.

Esta é a vida
vista pela vida
harmonia secreta da desarmonia
Luxo de minhas desequilibradas palavras

C.L.


- As nove rainhas -


"Que desvario entre os abissínios,
os gregos, os turcos e os eslavos
quando me aproximo de suas mulheres..."

Ibn al-Haddrach

- Uma ode a André Lobato -

.


Kind o f blue


(alô, chefe, então, vou ter que faltar o serviço hoje...)


(...pensando melhor...)

/-/-/-/

(tomando coragem)


(aliás... vou faltar a semana inteira...:))


(...)

(Quer saber, vê se me esqueeeece!)





- Dezembro de 2004 -

.


Deus seja conosco

e não esqueçamos nunca

que o mar é eterno

e afinal de todo tranquilo

e a terra grande

e mãe

e tem a sua bondade

Porque sempre podemos nela

recostar a cabeça cansada

e dormir encostados a qualquer coisa."

F.P.


.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

- Patoquita -


Se é tão bom assim estar contigo

E se em sorrisos largos eu me deito

E se como um anjo rouco eu lhe cantasse


E se nas noites lentas que chovesse

Apenas o amor que ri solto em nossas vidas

O rubor querido dos vestidos e quadriculados


O tempo infinito grudado em teus sapatos

Girando sob os sóis a abrir mundos e rodar espaços


No incrível reino risonho

de suas primaveris ternuras




quarta-feira, 20 de junho de 2007

- En éias -



Nada dessas naus nos noivos nascidos nas noites de novenas náufragas

nomes nicáraguas nicholas nascentes

naves nervosas navegando núcleos nebulosos nulas notas ninfas nem negam o negrume nos

nômades neuróticos narcisos eunucos nublando


Não nunca nem nada


Nada

Nada

Nada no navio nuclear e negro como a núbia nativa das notas



Nínguem assina a narrativa


- El Bazza-ar -


MADE IN LEME




iatch bazan-enn


"Quando chegar me liga então pra rolar aquele trabalho de ombro e triceps!!!"

A pós-Leminidade Técnico-científica

chega na caixa em mensagens versificadas

Pós-aproximação-vazia-do-tumulto-mundo-celular


do aparelho vinho que toca samba treme e tira e faz e lembra e que acontece no meio da aula sobre a metafísica kantiana...

Aperto o silencioso diante dos olhares mórbidos do mestre mas quem será essa pessoa? será a promoção o convite o parábens o sufoque ou não será nada???


desligar assim que entrar
desligar quando sair
ao conduzir
ao degustar


ao comer


Benditas caixas postais sem crédito para acessá-las, recuo escondido das palavras torpes que se anulam e se fazem em ondas magnéticas..


tendências pós-leministas todas, mas o que será pós-leminismo se leminista é aquele que segue a filosofia do ethos momentâneo o definitivo e atemporal anseio dialético entre a praia e a favela...


Cresce em números gestos e palavras
toda minha insípida postalidade


"Excluir todas mensagens?" me pergunta o aparelho

é como perguntar se quero a amnésia como opção para a multiplicidade das experiências, pensamentos e-mails e comprometimentos

Não, não quero excluí-las, não quero te-las, não quero receber mensagens, não quero créditos para acessar o meu correio elétrico

não quero toques, emoticons, chamadas não atendidas, vozes que somem...


Quero o que Benjamin definiria como o anseio primário do ser social...

A visão de um mundo pós-leminista.


Aonde isso???


Isso fica à imaginação...




segunda-feira, 18 de junho de 2007

- O atraso -



Bares Vazios na esquina do sinal

Festas nos portos perdidos pros lados de Macau

Terras vilas vinhas tardes virgens do ocidente

Guerras de bestas amansadas, de moças inocentes,

Divas no fundo vale do mundo




De spov oad as

As Cidades-entregues; desgraças desses ceifadores de mansardas desses príncipes de gala a traduzir finanças valetes de êxitos como ganhos de meretrizes de torrentes gordurosas de óleo e contrabando manchetes repletas de fraudes de comboios vermes e vielas a mesma seiva dos carros a galope das vítimas sem conta com grande raiva nas pálpebras do mundo repleto de imundície e infância das múltiplas e hábeis costureiras prostitutas nuas na organização das nações oráculos carregados nas lápides e encruzilhadas novas nas cadeiras e prisões. São enxames esses tenentes soldados são enxames esses lados viciados são enxames faíscam e rangem por todos os ferros desalinhados da esteira automática que suga esses versos de escudo bravo e tinto escarlate trêmulos estão os homens que não tem um muro que os proteja a Terra em breve um deserto por culpa de seus desculpados habitantes ensurdecidos pelo ouro fácil das serpentes seduzidos pelo temor que lhe inspiram seus grandes patrimônios o mundo se retorce em dor e grita como a mulher que dá à luz sem o parto já é uma cidade tão grande que são necessários três anos para atravessá-la:


- Eu e Álvaro de Campos -

Ao vivo no calçadão de Copacabana


Rio de Janeiro profundamente Boreal

dezoito de junho do ano de dois mil e Sete

Primeiros quarenta e dois minutos do dia

Melhor da madrugada


Grandes são os desertos

E deserta está a praia

Grandes são os desertos e no calçadão não há ninguém

Grandes são os desertos

E deserta é a poesia

Grandes são os desertos,

Minha eloqüência inspiração


Mas vou definitivamente arrumar as malas

É que o dia deu em chuvoso

No escuro da primeira hora do dia

Tudo fechado e tenho sede

De guarda-chuva listrado branco e preto

Vou gritando na Figueiredo Magalhães


- Dêem-me de beber, porra! Eu sou do Leme!


O renunciar de todas as janelas que estavam abertas

Se eles tem a cachaça guardem-na

Vou embriagar-me em Bicarbonato de Soda

Desconsolação na epiderme da alma

Afinal é tão pouco provável

Ser Borges ou Saramago


Graças a deus que estou doido

Com uma saudade prognóstica e vazia

Com uma náusea física da Avenida Prado Júnior interior




Marechal Carleto Gaspar 1841

Marechal Carleto Gaspar 1841